Amor por inteiro

Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo é por inteiro.Sou exigente no amor. Não sei deixar pra depois, ver no que vai dar, deixar rolar. Pra mim ou é ou não é. Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo, é por inteiro.

Pode ser por isso que não sou amada por muito tempo. Homens têm medo de tanto tudo assim. E eu peço mais. Mais palavras, mais olhares, mais presença, mais amor. Até quando não falo nada estou pedindo exatamente tudo isso. Mesmo sem querer.

Não dá nem tempo de eles me amarem. Podem até gostar no início. Mas o problema é se eu começo a gostar. Aí meus olhos me entregam, exigem. Minha ansiedade é estampada no meu rosto. Porque, além de ser exigente, tenho pressa.

E lá se vai mais um amor. Simplesmente porque eu não tive tempo de aprender a ser menos, a ter calma, a relaxar. É isso que me pedem sempre, não é? Já sei de tudo. Mas não adianta. Não consigo me conter.

E, se ainda não consegui mudar, fazer o quê? Só me basta fechar os olhos e esperar surgir alguém que me entenda e ame como eu amo – não gota a gota, mas com a grandiosidade de um oceano. Por inteiro.

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Aceite-me como sou

Apenas eu

namorados_idososAceite-me como sou
Doida ou sã
Puta ou santa
Alegre ou sofrida
Otimista ou descrente
Aberta ou reprimida

Deseje meu corpo
Firme ou flácido
Reto ou curvilíneo
Celulítico, paralítico, raquítico
Sóbrio, pálido ou bronzeado
Dobradiço, roliço, desenfreado

Ame meus defeitos, meus peitos, meu humor
Meu desespero e meu despudor
Veja luz em meu olhar e acolha minha dor
Abrace minha essência e terá o meu amor

Fiz um vídeo recitando essa poesia, a propósito:

No pensamento alheio

Dia desses estava pensando em um cara bem legal. Não chega a ser alguém que me tira o fôlego, mas uma pessoa que eu queria ter por perto e está bem longe. Aí pensei: será que ele pensou em mim alguma vez? Pior: será que alguém já pensou em mim?

Não falo daquela hora em que um amigo deixa uma mensagem no Facebook “oi Dri, como vc tá?” ou liga chamando a Dri pra papear com os amigos. Super valorizo isso, adoro mesmo, dou um sorrisão de ponta a ponta quando acontece. Só que isso é lembrança de amigo, uma coisa muito fofa, mas não é pensar.

Tô falando do pensar de menininha, sabe? Quando a gente fecha os olhos e pensa nos detalhes do rosto dele e ri sozinha quando lembra alguma besteira engraçada que ele disse. Não é pensar de paixonite aguda, que faz perder os sentidos. É um pensar simples, com carinho, que dá vontade de abraçar a pessoa na mesma hora. Ou de ligar pra dizer, sei lá, que estava pensando em você.

Homens têm dessas coisas, será? Não sei se ando tão desiludida que não consigo acreditar que eles possam ficar mais de 30 segundos lembrando de uma mulher, a não ser quando estão calculando qual das que ele tem na agenda servem pra “fazer alguma coisa hoje”. Ou, o que deve ser ainda mais normal, quando eles estão, digamos, se conhecendo numa noite solitária. Aí têm que escolher uma pra servir de inspiração mesmo.

Não convivi com muitos homens apaixonados na vida, então não sei. Sei muito menos se em algum momento das vezes que minha orelha coçou foi porque tinha um rapazinho pensando em mim, pensando com sentimento, sem objetivos exclusivamente sexuais.

Bom, se eu for considerar os fatos concretos, sobram uns dois, três no máximo, que eu posso supor que já ensaiaram um suspirozinho por minha causa. Mas não boto minha mão no fogo, não. Nem é que tô esperando um comentário cheio de afagos. É que não faço muito o tipo musa inspiradora mesmo não.

Neste momento, por exemplo, estou escorregada na cadeira, com uma roupa sem graaaaça, óculos, rabo de cavalo, séria. E normalmente estou tropeçando, perdida – com ou sem carro -, falando de trabalho, nervosa por algum motivo bobo. Sério, que tipo de homem suspiraria por alguém assim?

Pois é, também não sei. Mulheres desastradas, sérias e trabalhadoras só se dão bem nos filmes de comédia romântica. Aliás, já reparou que TODAS as mocinhas desses filmes são jornalistas atrapalhadas e maluquetes, solteironas com mais de 30 anos? Aí elas esbarram com o bonitão de sorriso hipnotizante que um belo dia se toca que está perdidamente apaixonado por ela. Aham. Coitadas das bem sucedidas encalhadas da vida real. Acreditam que isso acontece mesmo (ai, bem que podia).

Mas meu assunto era o pensamento. E eu quis escrever sobre isso porque, de verdade, duvido ter sido alvo do pensamento romântico de alguém. E não precisa dizer “claro que já, você é que não sabe”. Continuarei duvidando, teimosa que sou, até me provarem o contrário.

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Pensando em você – Paulinho Moska

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só

Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer
Eu estou pensando em você
Pensando em nunca mais
Te esquecer.

Eu, pensando em você.
Pensando em nunca mais
Pensar em te esquecer
Pois quando penso em você
É quando não me sinto só
Com minhas letras e canções
Com o perfume das manhãs
Com a chuva dos verões
Com o desenho das maçãs
E com você me sinto bem

 

Romance abóbora 2.0

No tempo da minha avó, existia uma coisa chamada romance. As moças sentavam na praça e trocavam piscadelas e sorrisos com os rapazes do outro lado. Quando os olhares se cruzavam mais de três vezes, começava um namoro. Trocar palavras, então, era quase noivado. E depois disso os dois passavam a vida inteira se descobrindo, vivendo aquilo tudo à prestação, como se aprecia uma panela de brigadeiro feito em casa: devagar e aos poucos, para sentir bem o gostinho de cada colherada.

Sim, naquela época havia restrições, casamentos armados a contragosto, caretice. Mas também tinha o flerte, o suspiro, o entrelaçar de mãos que provocava arrepios, o passear na praça que deixava saudade. Tinha o romance original, sonhador e constante.
A minha geração criou o romance abóbora. Música alta e dançante. Duas pessoas cruzam olhares de interesse. Ela dança com mais ânimo, sorri o tempo todo, faz questão de ir ao banheiro ou dar uma volta sem destino só para esbarrar nele sem querer e ser percebida. Ele coça a barba sutilmente, reforça a intensidade do olhar em busca de um aval. Sinal verde dado, em pouco tempo ele se aproxima.

Eles dançam uma vez, descobrem os devidos nomes e, talvez, profissões. Sorriem de cada besteira que o outro diz. Ele lhe oferece uma bebida, eles brindam e sorriem mais um pouco. Começam a se tocar quase sem querer, dando sinais de intimidade. Mais uma música e o frio na barriga. Ele abraça sua cintura, ela começa a se entregar. As mãos se entrelaçam, nariz e orelha se encontram, bochechas enrubescem ao sentir a textura da pele que encosta. Os olhos se fecham e pronto. A partir daquele instante, eles são um casal.

Um casal romântico, que troca carinhos e elogios, anda de mãos dadas e se beija o tempo todo. Ele fala, ela fala – da profissão, da cidade, do lugar em que moram, dos amigos, das festas. Mas tudo romanceado. Nessa hora, ninguém tem defeitos nem problemas. Parecem se conhecer há várias vidas. São dois apaixonados, nasceram um para o outro.

A noite chega ao fim, a carona quer ir embora. Na despedida dolorosa, o beijo é intenso, o olhar é de promessa. Vontade de ficar junto naquele encontro de almas gêmeas. Até que vem a bendita frase, parecendo o beliscão que acorda o sonhador, a água fria que cala a serenata:
– Me dá seu telefone? (Ou – pior – o Facebook)

Lá se vão o romance, a intimidade, o quase amor eterno. Voltam a ser dois desconhecidos que sequer têm certeza de que aqueles números timidamente ditados e anotados são verdadeiros.
– Eu te ligo
– Aham, sei…
– Ligo sim. A gente combina alguma coisa
– Beleza. Tchau.

E cada um vai para o seu lado. Ele, cansado e meio tonto, só quer capotar na cama. Ela até demora a pegar no sono, lembra os detalhes daquele romance, do beijo, das palavras. E dorme. Com sorte, algum (muito) tempo depois, em alguma esquina da vida, eles se esbarram. Quando muito, trocam uma ou duas palavras. Como dois desconhecidos que são, dão as costas e seguem. E fim.

Ficou um vazio? Faltou alguma coisa? Pois é. Nos contos de fadas eles viveriam felizes para sempre. Mas nos contos modernos as coisas são assim, fugidias, efêmeras. O romance que era lindo se acabou, era vidro e se quebrou, antes de começar de verdade. Virou abóbora após as doze badaladas. E os dois partiram sem deixar o sapatinho, sem guardar lembranças nem mágoas, sem olhar para trás. Porque para abóbora moderna, 2.0 última geração, é assim: a fila anda, a noite é uma criança e o romance igual ao da minha avó não está com nada.

É por essas e outras que acredito ter nascido tarde demais…