Entre cobogós e tesourinhas

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Torre de TV de Brasília – Eixo Monumental (Foto: Adriana Caitano)

Lá do alto da Torre,
te vi pedalando no Parque da Cidade,
depois te encontrei no Beirute
e torci praquilo ser de verdade.

Skate no museu, por do sol na Ermida,
as quebradas de Ceilândia,
hip hop na avenida.
Num rolê em Planaltina e em Taguatinga depois.
Eu boto muita fé em nós dois.

Depois da Bomba no Guará,
te vi caminhando no Eixão,
surfando no Lago Paranoá,
indo ao Conic fazer carão.

Na SQS te vi entre cobogós, lá embaixo no pilotis.
E de baú indo pra Rodô vi a lua gigante naquele céu sem fim.
Será que você estava pensando em mim?

Na última tesourinha,
entrei na quadra errada, pra variar.
Me perdi nas Duzentos e parei numa quadra pra fotografar
Um ipê amarelo que acabou de aflorar.

Penso em você todo dia,
Alguém com quem tenho em comum
O amor por essa Brasília,
Que não se compara a lugar algum.

Se não rimar

Ícone by FreepikEstou numa fase poesia
Quando quero rimar meus sonhos com minha vida
Mesmo sem rimar

Ando querendo flutuar
Trocar de roupa, de rumo, de dia

Quero ouvir música e admirar
A lua, a chuva, o ipê
Quero o devaneio no lugar do espelho
E o suspiro no lugar do porquê

Quando sou prosa,
Quero desabafar, entender
Por que o mundo não é cor de rosa?
Quero mais pensar, mais dizer

Quando sou poesia,
Quero encurtar, perceber
Ser minha essência
Que só sabe sonhar pra viver

Mesmo sem rimar

Contradição

rostinhoNunca guardo rancores
Não odeio ninguém.
Não sobrevivo a amores
Mas a solidão não me convém.

 

Explodo com um olhar
Me apego como uma garça.
Te esqueço se não me amar
Mas amo o mundo de graça.

Me falta paciência
Me sobra preocupação.
Mas viver é uma ciência
da qual não quero abrir mão.

Duas vezes Vinícius

Dois pedacinhos da obra do meu poetinha preferido, Vinícius de Moraes, que achei num livro na sala de espera de um médico:

Da solidão – Vinícius de Moraes

“A maior solidão é a do ser que não ama.
A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno.
Ele é a angústia do mundo que o reflete.
Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.”

Tomara – Vinícius de Moraes (cantada por ele, Toquinho e Marília Medalha)

“Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho

Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais”

O sofrimento criador

Sabe o Vinícius de Moraes? Sim, ele foi um gênio. Mas só conseguia escrever tudo de lindo que ele escreveu quando sofria. Precisava se apaixonar todos os dias para ter inspiração. E perder, ser deixado ou deixar de amar para compor uma canção bem sofrida, um soneto bem medido, um poema dolorido.

Ele dizia que “todo grande amor só é bem grande se for triste” e que até para fazer um “samba com beleza” era preciso “um bocado de tristeza”. O coração dele sangrava e, em seguida, as palavras eram escritas com as gotas de sangue que rolavam. Esse era seu combustível, seu segredo. Assim ele se tornou o maior, o poetinha gigante, eterno.

E como ele houve tantos. Desde sempre foi assim. Da música erudita aos poetas do romantismo; dos sambas doídos de Cartola às mais populares músicas sertanejas. O amor sofrido move a poesia, a canção romântica e até o cinema e o teatro, por que não? Só quem sente a dor de um amor – ou da falta dele – consegue expressá-lo com a intensidade que seu sentimento merece.

Muitos sofrem por prazer. Não suportam a felicidade simples. Serem correspondidos por quem amam torna-se cômodo demais, entediante, um vazio criativo. Ou no mínimo uma desconfiança de que algo ruim está por vir. E por isso os grandes gênios da arte costumam ser sozinhos.

Não quero me comparar a nenhum desses gênios. Longe de mim. Mas no fundo sinto que me inspiro, me encho de vontade de organizar palavras soltas em frases desconexas, mas verdadeiras, quando meu coração está ardendo e minha mente parece nublada. É terapêutico. Eu me entristeço, sofro e corro para uma página em branco. Sem pressão nem horário.

E vão saindo parágrafos que podem não fazer o menor sentido para quem lê, mas voltam para mim como se fossem um bálsamo que vai limpando tudo. Até eu me acalmar de vez e conseguir abrir os olhos para ver que o sol continua brilhando lá fora – e também dentro de mim. E o sofrimento, que pode ter começado sem nenhum motivo real, torna-se um desfrute poético bem particular, que nem precisa ser genial, mas é simplesmente confortador.

(Assuntos relacionados no post anterior e no próximo)

Meu ócio criativo

Fazia tempo que eu não escrevia um poema. Quando era criança e adolescente fazia isso quase todo dia. Talvez porque fosse mais quieta, calada, deprimidinha. E só sabia dizer o que sentia escrevendo.

Sempre amei escrever. Pensei em ser professora pra despertar isso em todo mundo também. Acabei sendo jornalista. E hoje escrevo por obrigação, coisas que não têm nada a ver com o coração. Não era bem isso que eu queria.

De uns dias pra cá comecei a tentar descobrir o que eu queria mesmo fazer. A música e a escrita sempre estão no topo da lista. Não quero fazer música, tocar, cantar. Mas estudar música, entender, conhecer a história, ouvir, ouvir e ouvir. Só pra mim, não preciso trabalhar com isso – mas é claro que seria perfeito se conseguisse.

A escrita estava adormecida. Minha criatividade ficou escondida, presa pelas regras e os padrões jornalísticos. Mas comecei a lembrar que o que gosto mesmo é de ser livre. Rimar quando quiser, repetir as palavras que quiser. Tudo pensado e calculado – ou não. Tudo do meu jeito.

Aí surgiu a inspiração que faltava. Uns dias pensativa e triste meio sem motivo foram suficientes pra eu abrir a torneirinha das palavras. E, neste domingo de sol e puro ócio, fui soltando um a um cada pensamento que vinha sobre o amor que não tenho, o que queria ter, o que tive, o trabalho, a vida…

Essa pequena explosão de devaneios rendeu alguns textos – em prosa e poesia – que, intercalados com músicas que tenho ouvido, começo a publicar aqui esta semana. Não são necessariamente realistas, talvez verossímeis. Não se destinam a alguém específico, mas podem ser interpretados assim talvez. Depende de quem lê. Depende de como interpreta.

Podem ser horríveis, piegas, bobinhos, mas se foram publicados é porque me fizeram bem ao saírem de dentro de mim. Como um filho que causa dor ao sair do ventre da mãe, mas provoca um sorriso dela quando o vê nascido.

Espero que gostem. Mas, se não gostarem, tudo bem também. Não sou egoísta, mas fiz tudo pra mim.

Motivo – Cecília Meirelles
(esse não é meu, mas é um inspirador)
“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.”

“Literatura sem renúncia é terreno baldio” – Carpinejar

Estão lembrados da entrevista que fiz com o escritor Fabrício Carpinejar para o blog VEJA Meus Livros? Em junho, foi publicada a primeira parte, depois coloquei aqui trechos do livro Mulher Perdigueira, que ele estava lançando, e recentemente outro trecho de uma das crônicas sobre o ansioso. Já citei também um texto muito bacana sobre a falta de coragem que os homens têm para amar. No último dia 5, foi publicada a segunda parte da entrevista e eu nem me lembrei disso. Só vi agora. Essa parte é sobre como ele usa o Twitter para fazer poesia simples e direta. Só pra dar um exemplo, olha o último tweet dele (em @carpinejar): “Mentir por necessidade é mentir duas vezes”.

O poeta do Twitter: ‘literatura sem renúncia é terreno baldio’ (a segunda parte da entrevista com Fabrício Carpinejar)

“Escritor, jornalista e professor universitário, autor de quatorze livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir, deixará de ser poeta.” Essa é a apresentação que faz de si mesmo, no blog que leva o seu nome, o gaúcho Fabrício Carpinejar. Aos 37 anos, Carpinejar poderia ser como muitos poetas e escritores que restringem seu contato com o mundo aos livros que escreve e lê. Mas ele está longe de fazer o tipo que se esconde por trás das palavras.

Pelo contrário. Não contente em expor em livros seus pensamentos, às vezes assumidamente contraditórios, Carpinejar deu para atualizar três blogs – um de crônicas, outro de conselhos amorosos e o último sobre futebol – e para filosofar no Twitter, onde acumula mais de 63.000 seguidores. Um número sempre em expansão, aliás: em junho, eram 35.000. Separado, ele ainda divide a guarda dos dois filhos e tem tempo para o amor, que é seu tema preferido e que pautou as suas últimas crônicas, reunidas numa trilogia em que, segundo o autor, “a prosa está encharcada de poesia”.

A trilogia é composta pelos livros O Amor Esquece de Começar, uma visão bem feminina do sentimento, Canalha!, que desmente a ideia de que ser canalha é ruim e lhe rendeu o prêmio Jabuti de Literatura no ano passado, e o recém-lançado Mulher Perdigueira. No último, Carpinejar defende as mulheres, os ciúmes e as demonstrações públicas – e excessivas – de afeto. “Quero uma mulher perdigueira, possessiva, que me ligue a cada 15 minutos para contar uma ideia ou uma nova invenção para salvar as finanças, que ame meus amigos e odeie qualquer amiga que se aproxime, que arda de ciúme imaginário para prevenir o que nem aconteceu”, diz a crônica que abre o livro.

Mas, nesta segunda parte da entrevista de VEJA Meus Livros com o poeta Fabrício Carpinejar, o foco recai mesmo sobre o Twitter, rede social que ele utiliza como poucos. Clique aqui para conferir a primeira parte, publicada em junho.

Como é a sua relação com o Twitter? Parece que você usa o microblog como um caderninho de anotações, fica anotando seus pensamentos ali para usar depois.
Isso! É meu Moleskine (marca francesa de caderno de anotações). Todo mundo diz que tem um com orgulho e empáfia, eu tenho meu twitter. Uma gaiola vazia canta mais que um pássaro. Ih, acho que eu acabei de fazer um tuíte. Vou colocar lá. Não é bonito? Eu acho bonito. Eu não entendi muito bem, mas acho que faz sentido.

Pois é, tem coisas que você escreve e não dá para entender bem, mesmo. Essas frases surgem na sua cabeça de repente e você anota lá, é assim?
É, são sugestões, insinuação. Isso também é muito feminino, o quanto a mulher consegue insinuar sem dizer, acho poético isso. O homem é que se entrega demais.

Você tem realizado oficinas de literatura no Twitter. Como é a experiência?
Eu trabalho com aforismos, que é parte do que se produz na rede social. Existe uma tradição muito forte desse tipo pensamento no Brasil, com presença de nomes como Mário Quintana, Millor Fernandes, Nelson Rodrigues e Otto Lara Rezende. A gente sempre teve a síntese, a concisão filosófica, pelo quanto o país sempre foi paradoxal, a gente sempre teve isso do contraste, de evidenciar um contraste, a máxima. Eu acredito que a grande escola brasileira é a escola do para-choque de caminhão. A gente gosta do lema de fazer, de contrariar. O brasileiro é apaixonado pela oposição. O gaúcho, mais ainda. Na oficina, eu falo sobre o quanto escrever pouco, em um pequeno espaço, dá o maior trabalho. Que quem tem preguiça escreve demais e apenas coloca o que pensa, sme trabalhar o texto. Escreve, escreve, escreve, mas não edita, não corta, não seleciona, não renuncia. Literatura sem renúncia é um terreno baldio.

Que tipo de ferramenta o Twitter pode ser para um escritor?
É preciso fazer uso do Twitter como uma ferramenta para atingir densidade sem deixar de ser simples. Para aprender a criar coisas desconsertantes com pouco espaço, saber buscar a cumplicidade da linguagem, como costurar duas, três histórias numa só. O Twitter é a naturalidade do convívio. Para você conviver com naturalidade, tem que suspirar, bocejar, gemer. O Twitter é o gemido, o suspiro, o bocejo, o sopro, é tudo aquilo que você esquece quando faz. Se a gente insistir em ser profundo sempre, acaba sendo redundante. O Twitter permite o oposto: a aventura da simplicidade.

O poder de sintetizar acaba sendo poético?
Exatamente. Quando você quer agradar, você é redundante. Acontece que o cérebro é contundente, ainda mais no Twitter…

Adriana Caitano