Ode ao gerúndio

Não que eu tenha descoberto a pólvora ou tenha conseguido achar a chave da perfeição e da felicidade absolutas. Mas nos últimos dias tudo passou a fazer todo o sentido do mundo quando um mix de textos, mensagens e sentimentos me fez começar a mudar aos pouquinhos aquilo que não gostava em mim: minha agonia constante pelo ontem e pelo amanhã.

Percebi que era exatamente isso que me fazia tão mal. Lembrar o passado me fazia sentir culpa, angústia, saudade, tristeza. Pensar demais no futuro me dava frio na barriga, frustração, ansiedade crônica, dores e neuroses.

E de repente resolvi ser hoje, estar hoje. Percebi que, críticas gramaticais à parte, o gerúndio é o melhor tempo verbal de todos. Olhar para os lados e perceber que a vida é isso aqui, o que estou vivendo, o que estou sentindo, o que estou vendo, é o que traz felicidade.

Não tem problema se o agora é triste, complicado, problemático. Ainda assim é sua chance de ser feliz. Basta tirar desses momentos tantas lições quantas a vida quiser te dar. Pode parecer absurdo, mas sofrer também é bom. A gente aprende a andar depois de levar alguns tombos, fica mais atento depois de errar e levar uma bronca, estuda com mais atenção quando não passa no vestibular.

Por isso, o passado tem que ficar de onde ele veio: lá atrás. Tire conclusões e aprendizados dele, mas deixe-o passar. E o futuro não tem que ficar em lugar nenhum, porque ele sequer existe. Sonhar é bom, desde que você não perca mais tempo fazendo planos que vivenciando sua realidade. Toda essa filosofia se resume em uma expressão: CARPE DIEM. Em latim, ela significa “aproveite o dia”. Simples assim.

E é nessa simplicidade que tento me apegar para viver meus dias a partir de agora. Fácil não é, mas e daí? Ninguém falou que seria…

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Para contextualizar meu estado de espírito, já estou há pelo menos uma semana interiorizando essas ideias, mas nestes dois últimos dias veio a certeza de que estou no caminho certo.

Na madrugada de domingo, minha irmã Andressa Caitano Ribeiro, 20 anos, pré-vestibulanda e futura médica, me mandou um e-mail dizendo o seguinte:
Acabei de vomitar umas ideias. Não sei se foi o sono o causador dessa catarse, mas veio e eu só tentei traduzir em palavras. Ficou tão não-meu que resolvi te mandar, não sei por que, talvez intuição!”.
E lá estava o lindo texto que segue abaixo e resume exatamente meu momento de cultivar o momento. Vai explicar! Coisa de irmãs.

Para completar, nesta segunda-feira (03/10) li a entrevista feita pela Branca Nunes, que trabalha comigo, com o filósofo francês Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França. Ele diz tudo o que eu precisava ouvir – aliás, que todo mundo precisava – sobre a busca pela felicidade. Leia a entrevista completa aqui (e veja o vídeo, que tem coisas a mais), mas já destaco o que achei mais interessante:

“Os gregos diziam que existem dois perigos que pesam sobre nós e nos impedem de ter uma vida boa: o passado e o futuro, que são armadilhas. O passado não é mais e o futuro ainda não é. Eles são negações que ocupam nosso dia e nos impedem de habitar o presente, que é a única dimensão real do tempo. (…) Para os gregos, o sábio é aquele que consegue pensar menos no passado e ter menos esperança. Se eu me separar, se mudar de casa, se trocar de emprego. O passado já aconteceu. O futuro é uma ilusão.”

Leiam e aprendam comigo. E CARPE DIEM!
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Vida clichê, termo intenso – por Andressa Caitano Ribeiro

Já me preocupei com ganhos e perdas
Com amores e desamores, antigos, presentes e futuros.
Já sofri com o que já vivi, me arrependi do que fiz e do que não fiz.
Me desesperei por não estar fazendo o meu melhor,
por não estar aproveitando o tempo como deveria.
Mais do que sonhei com o futuro: idealizei-o como quem redige uma trama teatral.
Já sofri pelo que já foi e pelo que ainda nem veio.
Mas, num momento CARPE DIEM da vida,
percebi o tanto de tempo que perdi com preocupações dispensáveis e neuróticas.
Resolvi, então, cultivar cada vez mais a ideia do hoje, do agora.
Tomar como lema a frase mais clichê da minha vida, porém a mais completa:
“Viver intensamente cada instante do presente, formando assim um passado memorável e um
futuro imprevisível, inusitado e mais feliz!”
Pois sem planejar demais não corro o risco de me decepcionar.
Faço essa reflexão sem ignorar a força do pensamento e o poder do magnetismo.
E nunca deixarei de sonhar e mandar a mensagem para o universo do meu desejo para o futuro,
Mas sem fazer dele a minha realidade maior.
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Na playlist do dia vai só Legião Urbana e a inesquecível música-poema do renato Russo que nos ensina a não pensar no amanhã:

Pais e Filhos – Legião Urbana

Estátuas e cofres. E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada é fácil de entender
Dorme agora
É só o vento lá fora
Quero colo. Vou fugir de casa
Posso dormir aqui com vocês?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três
Meu filho vai ter nome de santo
Quero o nome mais bonito
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há

Me diz porque que o céu é azul
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim
Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais
É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há

Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não lhe entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
E isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?

Estar pronto para o plano B

“A única coisa do planejamento é que as coisas nunca ocorrem como foram planejadas.” (Lúcio Costa)

Hoje, muito por acaso, encontrei o texto de uma mulher que aos 28 anos está fazendo tudo exatamente ao contrário do que planejou quando tinha 16. Na verdade acredito que ela não seja nenhuma exceção e sim uma regra. Quem de fato tem a vida que planejou quando era adolescente? A história dela é o inverso da minha, mas mesmo assim me identifiquei. Leia o dela primeiro, depois explico a minha parte:

Mudança de planos

JULIANA REIS, É MÃE EM TEMPO INTEGRAL DOS GÊMEOS ARTHUR E MIGUEL, E AUTORA DO BLOG MUNDO MATERNO (texto retirado da revista Pais & Filhos)

Quando eu tinha 16 anos, me imaginava hoje, com 28, assim: formada, fazendo especializações dentro da minha carreira, bem empregada, independente financeiramente, morando num apezinho alugado em um lugar legal, comendo sempre fora ou pedindo comida, com um cachorrinho, um schnauzer chamado Boris, solteira, nem pensando em casar e ter filhos. Pois é, meus planos foram por água abaixo.

Hoje, estou vivendo os 28 de uma forma totalmente diferente. Já com dois filhos – gêmeos! -, sem nenhum cachorro, dona de casa (o que eu às vezes considero uma posição medíocre pra tudo que sonhei), larguei a faculdade no meio, nunca tive um belo emprego… Engraçado pensar que aconteceu justamente o que eu nunca idealizei.

Ou melhor, em algum momento, deixei de sonhar com essa vida independente e sonhei em ter uma família, cuidar e ter bastante tempo disponível para meus filhos. E estou realizando.

acredito que se estivesse hoje vivendo a vida que planejei aos 16, estaria com um vazio, sentindo uma falta dos filhos que não tive e do amor absurdo que não senti por alguém. No fim, é um alívio estar vivendo uma vida totalmente diferente da que eu planejei por tanto tempo.

Parece que os planos tem um único papel na nossa vida: nos frustrar. Porque por mais possíveis que pareçam, eles nunca saem igual ao que a gente imagina.

Pensava em ter um filho e já tive dois, de uma vez só. Esse não é o tipo de coisa que se pode planejar. É sempre uma surpresa.

É verdade que às vezes dá vontade de entrar num carro, dar ré e acelerar o mais rápido que eu puder e voltar no tempo em que eu não tinha filhos, por 5 minutinhos, só pra respirar. Ficar esse tempinho sem precisar dizer nada, poder tomar um banho em paz ou escrever algo sem ter criaturinhas escalando minhas pernas, chorando ou metendo a mão no teclado do computador.

A pior coisa na profissão “mãe em tempo integral” é que não tem como dar um tempo!”

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Agora falando de mim…

Aos 16 anos eu achei que minha vida aos 25 deveria estar como em uma das seguintes opções:

Hipótese 1 – Eu estaria formada, num bom emprego, casada e planejando ter o primeiro filho (ou grávida);

Hipótese 2 – Eu estaria formada, num bom emprego e noiva, quase casando;

Hipótese 3 – Eu estaria formada, num bom emprego e, se ainda estivesse solteira, iria adotar um filho sozinha mesmo.

Quando me lembro disso dá muita vontade de rir. Formada e num bom emprego eu até estou, mas nem sei se quero continuar na mesma profissão, onde morar, onde passar as próximas férias! Mal dou conta de me sustentar, imagina se seria capaz de cuidar de uma criança agora? E definitivamente estou muuuito longe de me casar.

Engraçado como a vida segue um rumo tão independente da nossa vontade, né? Sei que organização e planejamento são muito importantes, mas acho que quem se deixa levar pela vida deve ser bem mais feliz. Como disse a Juliana, fazer planos demais só serve para nos frustrar.

Até porque a gente nunca vai saber se aquela vida planejada realmente seria mais bonita, divertida e plena que a de hoje. Então, se tudo sair diferente do planejado, é bem melhor fechar os olhos e se jogar no Plano B e nas oportunidades que a vida for trazendo. Sem medo de ser feliz!