Pausa para mais um adeus

Lá vai você de novo e eu nem tive tempo… Não ouvi você cantar, não sei sua cor preferida, o que te deixa triste nem os lugares que faltou conhecer.

Não deu tempo de dizer como preciso de carinho, que minha marra é puro medo. E que minha busca por carinho é pra ver se aprendo a ter alguém por perto sem fugir. E que estava começando a gostar de quem eu era perto de você. Ainda não era um suspiro, mas me fazia bem.

Não pude te contar como tropeço nos sentimentos e o quanto eles me confundem. Faltou tempo pra outro cafuné, pra outra tentativa.

Você já parece estar de saída e eu nem pude cuidar de você quando ficou doente. Não te vi à luz do dia, não vimos um filme inteiro. Não consegui saber mais sobre seu mundo, suas canções.

Mais uma vez se foi antes que fosse. Antes que eu decidisse se queria, se podia ser, se era você. Não foi.
Hoje é você, ontem foi outro “você”. Mais um quase interrompido. Mais um fim antes do começo… Mais um adeus.

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Fora de hora

ImagemSabe, eu sonhei com você minha adolescência inteira. Foi amor à primeira vista, não tinha jeito. Quando chegou a hora, abri mão de muito por sua causa. E no começo, apesar de difícil, foi tudo lindo. Eu te amava incondicionalmente e pra sempre. Mas você foi cruel comigo, me deixou sozinha demais, triste demais, pobre demais. Fiquei abandonada, com vontade de sair correndo, sem olhar pra trás. E foi o que fiz.

Costumo dizer que a melhor coisa da minha vida foi eu ter ido a seu encontro e a segunda melhor foi ter te abandonado. Não te quero constante na minha vida nunca mais, só que agora que tá pra fazer um ano que eu te deixei, preciso te dizer: bateu uma saudaaade de você, São Paulo…

Virando a página – mais uma vez

Começar tudo de novo às vezes dá uma preguiça! Mas a vida vive mandando a gente começar e recomeçar, tantas vezes quantas forem necessárias pra gente se acostumar com isso. Mas, mesmo que a gente se acostume, o friozinho na barriga é inevitável.

É que a inércia é uma das leis mais certeiras já criadas pelos cientistas. “Qualquer corpo em movimento retilíneo e uniforme ou em repouso tende a manter-se em movimento retilíneo e uniforme ou em repouso”, dizia Isaac Newton. Ele já sabia, desde aquela época, que é muito, mas muito mais fácil a gente manter as coisas como estão – mesmo que não tão boas – do que fazer as trouxas e partir pra outra.

O problema é que, seguindo a tal inércia, muita gente acaba se acomodando, aceitando qualquer coisa, aturando situações absurdas, só pela preguiça de recomeçar. Quantos casamentos desastrados e decadentes se arrastam por anos assim? Quantos empregados aguentam um trabalho chato e degradante em nome da estabilidade e se aposentam no mesmo lugar em que entraram na adolescência, só por medo de dar errado em outro lugar?

Não é fácil de verdade. Porque pra mudar de casa a gente tem que encaixotar tudo e depois arrumar de novo. Pra mudar de escola a gente tem que fazer novos amigos. Pra mudar de cidade às vezes a gente tem até que trocar todo o guarda-roupa. Pra terminar o namoro a gente tem que se reacostumar com a vida de solteiro, reaprender a paquerar. Pra começar um namoro a gente tem que se desvencilhar da liberdade de solteiro, reaprender a partilhar. Pra mudar de emprego, é preciso pedir demissão, dizer adeus, se despedir de quem te deu uma oportunidade e aprender de novo, coisas diferentes, conhecer pessoas diferentes.

Dá preguiça. Mas não é só. Dá nervosismo, ansiedade, tremedeira, choradeira, frio na barriga, dor de cabeça, vontade de desistir. Porque mudar não é só começar de novo, mas também encerrar um ciclo, fechar uma porta, virar uma página. E deixar coisas pra trás é melancólico, dolorido. Perder é dolorido, mesmo que essa perda venha acompanhada de uma nova chance ou de uma vitória. Infelizmente não dá pra ter os dois.

Só que mudar também tem um lado mágico. Sentir-se desafiado a aprender mais, se surpreender mais, errar mais pra aprender mais um pouco. Sentir a adrenalina correndo nas veias e provocando um tremelique no coração, uma avalanche no estômago, uma certeza de que nada é certo, mas que é bom mesmo assim. Porque começar de novo é uma prova de que a gente está vivo e sempre pode fazer um novo fim pra nossa história. E essa sensação não há preguiça que derrube!

PS: A mudança que estou vivendo agora não tem nada a ver com insatisfação. Mas resolvi falar de mudança de uma forma genérica. Só pra ficar claro…

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Tudo Novo de Novo – Paulinho Moska

Vamos começar
Colocando um ponto final
Pelo menos já é um sinal
De que tudo na vida tem fim

Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim

É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou

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A Natureza das Coisas – Elba Ramalho (gosto mais da música na voz do Santanna, mas não achei um vídeo bom)

Se avexe não…
Amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada.

Se avexe não…
A lagarta rasteja
Até o dia em que cria asas.

Se avexe não…
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa.

Se avexe não…
Amanhã ela pára
Na porta da tua casa

Se avexe não…
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá…

Se avexe não…
Observe quem vai
Subindo a ladeira
Seja princesa, seja lavadeira…
Pra ir mais alto
Vai ter que suar.

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Tente Outra Vez – Raul Seixas

Veja
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez

Beba
Pois a água viva ainda está na fonte
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou, não não não não

Tente
Levante sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça agüenta se você parar,
não não não não
Há uma voz que canta,
uma voz que dança,
uma voz que gira
Bailando no ar

Queira
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo, vai
Tente outra vez

Tente
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez

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Todo Carnaval Tem seu Fim – Los Hermanos

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

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Canção da Despedida – Geraldo Azevedo)

Já vou embora
Mas sei que vou voltar
Amor não chora
Se eu volto é pra ficar
Amor não chora
Que a hora é de deixar
O amor de agora
Pra sempre ele ficar

Eu quis ficar aqui
Mas não podia
O meu caminho a ti
Não conduzia
Um Rei mal coroado
Não queria
O amor em seu reinado
Pois sabia
Não ia ser amado
Amor não chora
Eu volto um dia
O Rei velho e cansado
Já morria
Perdido em seu reinado
Sem Maria
Quando eu me despedia
E no meu canto lhe dizia…

Já vou embora
Mas sei que vou voltar
Amor, amor não chora
Se eu volto é pra ficar
Amor não chora
Que a hora é de deixar
O amor de agora
Pra sempre, sempre ele ficar
Amor não chora
Amor não chora
Já vou embora
Já vou, já vou embora
Amor, amor não chora…

Mala, cuia e despedida

Quando eu vim para São Paulo, Steve Jobs estava vivo e o iPad não existia, iPhone era para poucos, Orkut não era peça de museu, Twitter era só para os mais descolados e quase ninguém usava o Facebook, que era muito chato. A Dilma não era presidente, a linha amarela do metrô não funcionava, o Justin Bieber não tinha lançado a própria biografia, o Bin Laden estava vivo. A blusa xadrez não estava na moda, a Sandy não era devassa, o mundo não tinha 7 bilhões de habitantes.

Se tanta coisa no planeta mudou em menos de dois anos, imagina eu! Definitivamente, sou outra pessoa. Fiz coisas das quais não me orgulho – fui maledicente, rancorosa e chorona. Mas tantas outras de inflar o peito de alegria – fiz amigos, aprendi lições e a perdoar.

Aos 15 anos, quando vi São Paulo do alto de um prédio pela primeira vez, decidi que queria viver aqui, um dia e para sempre. Queria saber como era ser e estar nesta cidade, com glamour, avanço e sons. Aos quase 24, consegui. E conheci outro lugar, mais real, mais concreto, mais só. E agora, aos 25, decidi que o para sempre teria que acabar.

Não vivi aqui nem metade do que sonhei que poderia. Mas também nem metade do que vivi eu sequer sonhei que poderia (deu pra entender?). Fiz e desfiz mitos, criei e reforcei laços, valorizei o que não observava, caí e me levantei. Chorei muitas vezes. Gargalhei outras tantas. Cresci (e engordei também…).

Agora volto para casa, com mala, cuia e saudade. Saio na hora certa, sem mágoas e com um sorriso constante tocando as orelhas. Um alívio misturado com a certeza de dever cumprido. Uma saudade de quem me tornei, do que vivi, de quem conheci. E um agradecimento sem fim a quem me acolheu, me entendeu, me surpreendeu. A São Paulo e a cada pedacinho dela que levo guardado na memória, o meu muito obrigada e um até logo!

As lições que a morte nos traz

Na última sexta-feira, nove dias antes do meu aniversário, um amigo de quem eu gostava/gosto muito deixou este mundo, aos 27 anos. Não o via todos os dias e só o conhecia há pouco mais de três anos, mas ainda assim sofri sua perda. Depois da dor de saber que não o veria mais com toda aquela alegria que lhe era peculiar, parei de chorar e observei que a dor era bem maior em outras pessoas. A namorada e a amiga dele – ambas minhas amigas – que moravam na mesma casa em que ele viveu nos últimos meses, assim como a família, que estava em outro estado, e o amigo-sócio, acostumado a tê-lo sempre por perto, com certeza sofrem muito mais.

Apesar de ser espírita e ter estudado a morte a vida inteira (e saber que ela é só uma mudança, um abandono do corpo), a única vez que tive que lidar com uma perda física tão próxima assim foi aos 17 anos, quando meu avô faleceu. Chorei, fiquei triste por um tempo. Mas, ainda que não quisesse acreditar, eu já esperava aquilo. Ele era velhinho, estava muito doente. E era meu avô. Avós e avôs velhinhos morrem daqui a pouco – todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe também que todo mundo vai morrer um dia. Mas nem por isso estamos preparados. Para a morte de um jovem cheio de vida em um acidente, ninguém está preparado nunca. E, mesmo entendendo o lado espiritual da morte, minha reação imediata foi sofrer.

Porém, observar a despedida do Álvaro e a dor da família e dos amigos mais próximos dele me fez respirar fundo e analisar melhor a situação. Constatei: a morte nos traz muitas lições.

Lição número 1: o Álvaro era uma pessoa alegre, engraçada. Todos que conviveram com ele foram unânimes: nunca o viram reclamar da vida, uma vez sequer. E aí pensei como seria se eu morresse hoje. No meu velório, não diriam assim, pelo contrário. “Coitada, ela era muito triste, não conseguia ficar animada com o que tinha por muito tempo. Talvez tenha sido melhor para ela mesmo”, é o que se ouviria de todos os presentes. E será que é essa a lembrança que quero deixar? De jeito nenhum!

Lição número 2: a segunda completa a primeira. Que marca estamos deixando na vida das pessoas? Quantas ajudamos? Quantas ignoramos? Nos preocupamos em apoiar, ouvir, compartilhar alegrias? Damos tanta importância aos problemas de quem amamos quanto para os nossos? Ou passamos o tempo inteiro falando de quão difícil é nossa vida, como se fossemos os únicos com dificuldades? Ensinamos algo a alguém? Aprendemos com todos? Fazemos a diferença?

Lição número 3: meu amigo morava bem pertinho de mim e eu não o via com tanta frequência. Se eu me senti mal por isso, imagina quem brigou com ele alguma vez, ou quem não aceitou um convite recente!? A situação me fez pensar em quanto tempo perdemos com coisas bobas, discussões por besteira, televisão, internet, quando poderíamos estar aproveitando os amigos, os parentes, os amores. Tudo ficou muito menor. O que temos de mais precioso é a vida. E por que não aproveitá-la da melhor maneira possível ao lado de quem amamos? O que custa dizer “eu te amo” para quem faz diferença em nosso dia a dia?

Lição número 4 [atualizada]: Ninguém pode se sentir culpado pela morte do outro, a não ser que a tenha provocado intencionalmente. Nada é por acaso e as coisas acontecem em seu tempo certo. Para quem fica, a morte deve ser apenas uma breve separação, um momento de refletir, de recomeçar. Cultivar o luto, a tristeza, o apego, só vai fazer mal. A despedida é um sinal de que é hora de mudar o rumo, descobrir coisas novas, ajudar alguém, dividir, ainda que sejam só palavras e abraços. Não pense que não conseguirá viver sem aquela pessoa. Quem partiu já havia cumprido seu papel, vencido seu tempo. E cada um tem o seu, não há regras. Aproveite a vida que você ainda tem.

Ainda estou pensando em muitas outras coisas, nem todas vou colocar aqui agora. Mas queria registrar as principais para dividir com vocês um pouquinho do que, espero, vai fazer parte da mudança que estou tentando fazer dentro de mim. Quem sabe alguém se inspira e recomeça também! Acho que meu amigo ficará feliz quando souber que inspirou boas resoluções.

Porque a morte pode ser uma perda, mas serve para ganharmos mais fé, mais confiança, mais alegria, mais gratidão à vida que temos. Assim, a tristeza se transforma em boas lembranças, a única coisa que realmente devemos guardar de quem se foi…

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A seguir, três mensagens de outras pessoas sobre o assunto. Primeiro a Zibia Gasparetto, que dá um belo conselho para quem passa por isso. Depois Renato Russo, com uma leve canção de despedida (apesar de eu não acreditar que alguém vá embora cedo demais – as pessoas se vão quando é chegada a hora, a não ser que tenham procurado a própria morte). Em seguida, lindo texto de Chico Xavier:

Por mais que esteja sofrendo a separação, se alguém que você ama já partiu, libere-o agora. Recolha-se a um lugar tranquilo, visualize essa pessoa em sua frente, abrace-a, diga-lhe tudo que seu coração sente. Fale do quanto a ama e do bem que lhe deseja. Despeça-se dela com alegria, e quando recordá-la, veja-a feliz e refeita. A morte não é o fim. A separação é temporária. Deixe-a seguir adiante e permita-se viver em paz.” (Zíbia Gasparetto)

Love in the Afternoon – Legião Urbana

É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais…

Quando eu lhe dizia:
“Eu me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada.”
Você sorriu e disse:
“Eu gosto de você também.”
Só que você foi embora
Cedo demais…

Eu continuo aqui
Com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Dia de chuva, dia de sol
E o que sinto não sei dizer.

Vai com os anjos, vai em paz!
Era assim todo dia de tarde
A descoberta da amizade
Até a próxima vez…

É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais…

E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer.

Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora
Só que este ano
O verão acabou
Cedo demais…

///
Se eu morrer antes de você, faça-me um favor:
Chore o quanto quiser, mas não brigue comigo.
Se não quiser chorar, não chore;
Se não conseguir chorar, não se preocupe;
Se tiver vontade de rir, ria;
Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão;
Se me elogiarem demais, corrija o exagero.
Se me criticarem demais, defenda-me;
Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam;
Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo…
E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase:
– Foi meu amigo, acreditou em mim e sempre me quis por perto!
Aí, então derrame uma lágrima.
Eu não estarei presente para enxugá-la, mas não faz mal.
Outros amigos farão isso no meu lugar.
Gostaria de dizer para você que viva como quem sabe que vai morrer um dia, e que morra como quem soube viver direito.
Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.
Mas, se eu morrer antes de você, acho que não vou estranhar o céu.
Ser seu amigo, já é um pedaço dele…” – Chico Xavier