Entre cobogós e tesourinhas

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Torre de TV de Brasília – Eixo Monumental (Foto: Adriana Caitano)

Lá do alto da Torre,
te vi pedalando no Parque da Cidade,
depois te encontrei no Beirute
e torci praquilo ser de verdade.

Skate no museu, por do sol na Ermida,
as quebradas de Ceilândia,
hip hop na avenida.
Num rolê em Planaltina e em Taguatinga depois.
Eu boto muita fé em nós dois.

Depois da Bomba no Guará,
te vi caminhando no Eixão,
surfando no Lago Paranoá,
indo ao Conic fazer carão.

Na SQS te vi entre cobogós, lá embaixo no pilotis.
E de baú indo pra Rodô vi a lua gigante naquele céu sem fim.
Será que você estava pensando em mim?

Na última tesourinha,
entrei na quadra errada, pra variar.
Me perdi nas Duzentos e parei numa quadra pra fotografar
Um ipê amarelo que acabou de aflorar.

Penso em você todo dia,
Alguém com quem tenho em comum
O amor por essa Brasília,
Que não se compara a lugar algum.

A verdadeira (infeliz) tradição

Nesta semana fui ao Mercado Municipal de São Paulo para uma pauta e aproveitei para comer um tradicional sanduíche de mortadela (foto). Foi a terceira vez que estive por lá. Na primeira, em 2008, era turista, passeava com amigos da faculdade e comi um pastel de bacalhau muuuito salgado.

A segunda vez foi há cerca de seis meses, por causa de um exercício do Curso Abril. Uma oficina ministrada por editores da revista Bravo! sugeria que fôssemos a um ponto turístico da capital e descobríssemos uma pauta diferente por lá para um texto mais literário. Nem o sanduíche de mortadela nem o pastel de bacalhau. O que me chamou a atenção naquele momento foi algo que estava de fora do Mercadão e, infelizmente, também era bem fácil de se encontrar. Abaixo, o resultado (escrito em fevereiro de 2010):

Pomar ao ar livre
Nas proximidades do Mercado Municipal, as frutas que parecem não servir mais são degustadas por quem não pode ser exigente na escolha da comida
Adriana Caitano

Às quatro horas da manhã, Reginaldo Henrique de Almeida, 29 anos, acorda em algum canto da cidade de São Paulo. Não importa onde ele tenha dormido, o destino é sempre o Mercado Municipal, no centro antigo. Tenta chegar bem cedo para encontrar as melhores e mais bonitas frutas e hortaliças que vão compor seu desjejum. Cantarolando uma canção qualquer, com olhar criterioso, as mãos sujas e o polegar em carne viva, analisa e apalpa uma a uma, e, no fim das contas, leva quase todas. A procura tem hora para acabar. Às oito horas, quando o Mercado começa a ficar movimentado, ele vai embora.

Todos os dias, 350 toneladas de alimentos circulam pelo Mercado Municipal. A distribuição começa às sete da noite. Os caminhões que vêm da roça encostam no estacionamento próximo à entrada dos fundos e as caixas de frutas e verduras são carregadas até as lojas atacadistas, que ficam do outro lado da rua. Nesse trajeto, muita coisa cai no chão. Outro tanto é selecionado ainda nas carretas pelos carregadores. Às vezes o que sobra vai para o lixo. Outras vezes vira adubo na própria roça.

Mais uma triagem é feita pelos distribuidores, que repassam a mercadoria aos feirantes de rua e aos do Mercado. Domingos Cássio, dono de distribuidora, garante que não há desperdício. “Se jogamos fora é porque está muito ruim mesmo, ninguém comeria”, diz. Reginaldo come. E não se importa se o que achou estava mergulhado numa poça de esgoto, num saco de lixo ou era sobrevoado por moscas. Garante que nunca passou mal.

O ex-pedreiro segue a mesma rotina há um ano. Vive nas ruas desde que saiu de Pindamonhangaba, interior paulista. Há 12 anos roubou uma garrafa de uísque de um mercado e ficou uma semana preso. O processo foi arquivado, mas a ficha continuou suja. No início de 2009 foi para a capital à procura de emprego. Trabalhou em uma obra por seis meses.

Quando tentou continuar, a ficha suja o impediu. Não conseguiu mais uma vaga. Passou a viver da venda de latas encontradas nas ruas. E teve que aprender a pedir. Comida, nunca dinheiro. “Pra mim é uma vergonha ter dois braços e duas pernas e não querer trabalhar, prefiro revirar o lixo”. É do mesmo lugar que sai boa parte de sua alimentação. Depois de selecionadas, Reginaldo lava as frutas e verduras em algum bar. Às vezes consegue sal e óleo e faz uma salada. Se acha muitos tomates aproveitáveis, lava, coloca em uma caixa e vende do lado de fora do Mercado.

Lá dentro a mercadoria é bem diferente. Ameixas, pêssegos, carambolas, pitaias da Indonésia, sapotis do Amazonas estão sempre impecáveis. Parecem desenhadas delicadamente por um artista e exibidas com o cuidado de um curador de arte. Reginaldo já tentou entrar para pedir aquelas que não se enquadram no padrão de beleza. Mas foi impedido. O vendedor Delson Ramos conta que as sobras vão para casas de caridade cadastradas na prefeitura, que recolhem as doações em todas as bancas. Os pedintes não têm vez. “Se damos uma vez, eles viram clientes e acham que somos obrigados a dar sempre”, reclama.

Reginaldo se contenta com as que acha no chão, em volta do Mercado. Com a sacola preta na mão, segue para um abrigo temporário onde toma banho e tem direito a um almoço. Às seis da tarde tem que voltar para a rua. Vende as latas, procura mais algumas, se ajeita em um canto qualquer e dorme cedo para não se atrasar na ida à feira do dia seguinte. Mas essa rotina está prestes a ser interrompida. A passagem de volta para Pindamonhangaba que ganhou do serviço social da prefeitura já está marcada. No dia oito de fevereiro vai para casa limpar a ficha policial. Depois pretende voltar para São Paulo, não para colher frutas nas esquinas, mas para trabalhar de verdade.