Amor por inteiro

Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo é por inteiro.Sou exigente no amor. Não sei deixar pra depois, ver no que vai dar, deixar rolar. Pra mim ou é ou não é. Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo, é por inteiro.

Pode ser por isso que não sou amada por muito tempo. Homens têm medo de tanto tudo assim. E eu peço mais. Mais palavras, mais olhares, mais presença, mais amor. Até quando não falo nada estou pedindo exatamente tudo isso. Mesmo sem querer.

Não dá nem tempo de eles me amarem. Podem até gostar no início. Mas o problema é se eu começo a gostar. Aí meus olhos me entregam, exigem. Minha ansiedade é estampada no meu rosto. Porque, além de ser exigente, tenho pressa.

E lá se vai mais um amor. Simplesmente porque eu não tive tempo de aprender a ser menos, a ter calma, a relaxar. É isso que me pedem sempre, não é? Já sei de tudo. Mas não adianta. Não consigo me conter.

E, se ainda não consegui mudar, fazer o quê? Só me basta fechar os olhos e esperar surgir alguém que me entenda e ame como eu amo – não gota a gota, mas com a grandiosidade de um oceano. Por inteiro.

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Quando você chegar

Oi, tudo bem? Desculpa, não quero te incomodar assim com minha ansiedade fora de hora, mas preciso falar. De qualquer jeito, acho até bom você começar a conviver com ela, minha ansiedade, porque ela não deve me abandonar até você aparecer. Logo, vai ter que se acostumar.

Então, é que queria fazer uns pedidos, coisa boba. Nem sou tão exigente nem pidona, mas preciso deixar algumas coisas claras, tudo bem pra você? Bom saber que me entende, afinal, se não entendesse, pelo menos um pouquinho, nem chegaria à minha vida, não é mesmo?

Bom, primeiro quero pedir pra, quando você chegar, por favor, não vir dirigindo um Camaro, uma Ferrari ou uma Hilux. Sem querer ser preconceituosa, mas já sendo, não costumo admirar pessoas que precisam ostentar exageradamente sua conta bancária para chamar a atenção. Não é nada pessoal. É meu jeito.

Se puder surgir sorrindo também seria ótimo. É que adoro pessoas de bom humor, que me façam rir, sem serem bobas, claro. E pode deixar a barba por fazer. Homem fica um charme sorrindo com a barba por fazer. Com a roupa não me importo tanto. Não sou exatamente o modelo de estilo. Então, se vestindo de acordo com a sua idade, tá muito bom.

Ah, não precisa trazer flores. A última vez que recebi uma rosa ela veio seguida de um abraço de despedida e muito choro. Deixa isso pra depois. Chocolate também é dispensável. Aliás, nem poderei comê-los, então é melhor não me fazer passar vontade.

Se você for normal, uma pessoa normal que tem uma vida normal e fala coisas normais, vai ser lindo. Já conheci príncipes, teóricos, filósofos, dançarinos, visionários, comediantes e artistas. E, acredite, eles seriam bem melhores se fossem simplesmente normais.

Há outra coisa sobre a qual você não pode se descuidar: a altura. Você sabe, não me sinto confortável em ver alguém me apontando na rua porque estou me esforçando para diminuir meu 1,83 metro de altura para dar a mão ao companheiro baixinho. Novamente peço desculpas pelo preconceito, mas essa é uma cláusula sobre a qual não abro mão. Dê um jeito de ser alto, por favor!

No mais, sei lá, venha preparado. Eu não sou uma pessoa muito fácil de lidar. Sou do tipo que não bebe, não é muito boa em piadas, se irrita com quase qualquer coisa e não é assim a experiência e maturidade em pessoa. Será que você vai me aguentar? Não se assuste! Eu estou disposta a me desfazer de alguns defeitos que há muito têm me incomodado mesmo. Espero ter melhorado até sua chegada.

Por último, não que eu esteja desesperada ou morrendo de pressa, mas bem que você poderia não demorar tanto, né? Porque todos esses pedidos que fiz não fazem nenhum sentido se você não vier.

E eu troco, juro, quase todas essas exigências por ver você surgindo logo, de verdade, mesmo com carrão, flores, bombons, roupa feia, cara séria e sem barba. Mas, se puder não ser baixinho, ainda agradeço.

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Do amor  – Tulipa Ruiz


O meu amor sai de trem por aí
e vai vagando degavar para ver quem chegou
O meu amor corre devagar, anda no seu tempo
que passa de vez em vento

Como uma história que inventa o seu fim
quero inventar um você para mim
Vai ser melhor quando te conhecer

Olho no olho
e flor no jardim
Flor, amor
Vento devagar
vem, vai, vem mais

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Dois – Tiê


Como dois estranhos,
Cada um na sua estrada,
Nos deparamos, numa esquina, num lugar comum.
E aí? quais são seus planos?
Eu até que tenho vários.
Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar.
E mesmo assim, queria te perguntar,
Se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar,
Se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?

E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo,
Eu tenho alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.

Expectativa para 2012: não ter nenhuma expectativa

Na minha lista de resoluções para o ano novo, o primeiro item exclui a necessidade de ter outros: em 2012, quero esperar menos, criar menos expectativa sobre as coisas e as pessoas. Depois de tanto me surpreender com coisas lindas que a vida me trouxe sem eu sequer imaginar que aconteceriam, aprendi que concentrar minhas energias em uma opção só é a maior perda de tempo. Então tive que escrever algumas palavras sobre o assunto. Desculpem-me se parecer uma dessas correntes de e-mail, mas tentei resumir algumas ideias que estão martelando em minha cabeça há um tempinho:

Expectativa. Talvez esta seja a palavra mais perigosa de todo o dicionário. Digo isso por ter sentido na pele o poder que ela tem – nem uma nem duas, mas centenas de vezes. E, acredite, ela é bem pior do que parece.

Ter expectativa parece algo muito bom a princípio. É coisa de gente otimista, que acredita no futuro, que tudo vai dar certo. Esperar que algo bom vai acontecer só atrai o melhor, dizem os livros de autoajuda. Mas essa tal de expectativa, apesar de bonita, é muito audaz.

Ela sabe exatamente nossas fragilidades. Sabe que uma pessoa que a detém com muita força perde os sentidos, não olha para os lados, não mantém os pés firmes no chão. E ela espertamente empurra a pessoa para o alto, mais alto e mais alto.

O problema é que, quando ambas estão voando sobre as nuvens, impávidas e livres, chega uma chuva de realidade e tudo desmorona. Aquilo que se esperava tanto não se concretizou e todos os sonhos, as histórias, os desdobramentos imaginados para aquela situação vão por água abaixo sem sequer terem se realizado. E aí o tombo é grande.

A expectativa é faceira. Nos envolve sorrateiramente, nos enche de criatividade e especulações mirabolantes. Mas ela sabe que nem tudo pode ser como planejamos, que há mais fatores do que a nossa simples vontade para determinar o desfecho de um enredo.

Já nós somos teimosos e ansiosos ao extremo. Esperamos demais de tudo – pessoas, cidades, mudanças, empregos, filmes, livros e até de nós mesmos. E com isso corremos o risco de toparmos por aí com a filha da expectativa: a frustração.

Essa só não é mais perigosa porque não tem vontade própria – só existe se antes alguém tiver menosprezado ou superestimado alguma coisa. Sabe bem do que estou falando quem já pagou caro por um show horrível, apostou todas as fichas numa empresa falida, idealizou um casamento de contos de fadas e ficou solteirona, chorou litros d’água ao perceber que o príncipe encantado era um sapo verruguento ou sonhou em ser estrela em Hollywood e conseguiu no máximo uma figuração na propaganda do governo.

Boa parte do que reclamamos em nossa vida tem a ver com o que esperávamos que iria acontecer e não aconteceu. Quanto maiores forem minhas expectativas, maior a possibilidade de eu me frustrar e, claro, maior será meu tombo se tudo der errado. Porque o mundo não tem culpa das expectativas que criamos. As pessoas não pediram para esperarmos tanto delas.

Não estou dizendo que sonhar é ruim, de jeito nenhum! Sonhar é um dos poucos direitos que nunca poderá ser roubado. Mas não custa nada sonhar com pés firmes.

Se sou romântica, posso querer ser feliz no casamento, mas não preciso achar que toda a minha felicidade depende disso. Se quero ser ator, devo saber que começar por baixo é o melhor caminho e que, caso eu não tenha talento, devo tentar outra coisa. Se desejo me mudar de cidade, preciso ter noção de que vou encontrar dificuldades e problemas em qualquer lugar do mundo.

Por isso, se o conselho de uma pessoa ansiosa que teve muitas expectativas frustradas valer alguma coisa, evite-as. Aceite mudanças de planos, de rotas, de ideias. Sonhe, mas sem achar que qualquer coisa diferente do que você quis será muito ruim. Aprenda a conviver com as questões que a vida te traz, mas sem deixar de arregaçar as mangas para ir atrás do que acredita.

Enfim, viva um dia de cada vez, espere menos e faça mais. Porque a única pessoa capaz de te fazer feliz de verdade é você – aqui e agora!

Como reconhecer um ansioso

O escritor, poeta e tudo o mais Fabrício Carpinejar (de novo ele) se diz ansioso e, em uma crônica do livro Mulher Perdigueira, resumiu o que milhares de ansiosos como eu sentem todos os dias. Como ele disse tudo, nem preciso comentar:

“Sofro por antecipação, o que me põe a ensaiar a cena para diminuir o sofrimento. Só que organizo eventos para os atos mais minúsculos, dobrando o martírio no fim das contas. Em vez de sofrer na hora, sofro um dia inteiro pensando na hora que vou sofrer. O incômodo passageiro é um desconforto permanente. Banalidades do cotidiano geram desproporcional tremedeira. No intuito de preveni-las, eu me canso em hipóteses pessimistas, desculpas furadas e boicotes.

Carrego uma postura catastrófica. Sou dramático nas amenidades, sóbrio nas tragédias. Sinto o pânico no lugar errado e no momento errado. Serei tranquilo num deslizamento, numa enchente, num incêndio. Mas perderei a lisura ao não encontrar um livro em minha biblioteca. O fóbico não é o que usa uma lupa para ampliar o tamanho das coisas, mas fixa a lente com tamanha insistência que acaba queimando o que vê com o reflexo do sol.” – Fabrício Carpinejar