A todos os tipos de amor

http-www.huffpostbrasil.comadriana-caitanolagrimas-e-poesia-com-o-beijo-de-johhny-hooker-e-liniker-no-rock-in-rio_a_23212848-utm_hp_ref=br-homepagelittle one!

Seu amor não é doença, não é crime, não é pecado, não é vergonha. Seu amor é talvez mais amor que os outros, porque exige ainda mais coragem, mais força, mais paciência. Porque o mundo te julga, te aponta, te exclui, te espanca, te cospe, te esconde, só pelo seu jeito de amar.

Seu amor é lindo, porque é autêntico, porque não tem amarras, porque enfrenta tudo, o medo, o ódio, a dor. Seu amor vira assunto para os outros, vira polêmica, vira tabu, mas é da conta só do seu coração.

Eles, que maldizem esse seu forte amor, não estavam com você quando foi alvo de risadas na escola, quando se olhou no espelho se perguntando porque era diferente, quando se fechou para não enfrentar os olhares alheios.

Não estavam ao seu lado quando descobriu que não era como a maioria e se questionou tantas vezes se estava errado, infringindo alguma lei divina ou humana, quando teve que encarar a preocupação ou o desapontamento de sua família.

Eles invocam regras, textos, teorias, trechos bíblicos, pesquisas para dizer que você não é normal, que seu amor não é permitido. Mas não estão dentro de você para saber o que sentiu desde criança, o que viveu e ainda terá que viver por ser quem é.

Eles querem te condenar ao fogo, à lágrima, à morte. Mas não desanime ou se impressione. Seja tão forte quanto o amor. É só ele que importa, é só ele que vai salvar o mundo um dia, é só ele que vai prevalecer. É só o amor que aceita todo amor do mundo, o seu, o meu e até o deles. Aceite seu amor e acredite que tudo vai ficar bem. Um dia.

*Originalmente publicado em meu blog no Huffington Post Brasil

Paula e Bebeto – Milton Nascimento

Vida vida que amor brincadeira, vera
Eles amaram de qualquer maneira, vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarão sempre juntos, muito
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira me vale cantar

Eles se amam de qualquer maneira, vera
Eles se amam e pra vida inteira, vera
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valerá

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Amor por inteiro

Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo é por inteiro.Sou exigente no amor. Não sei deixar pra depois, ver no que vai dar, deixar rolar. Pra mim ou é ou não é. Não dá pra amar aos pouquinhos, a conta-gotas. Se amo, é por inteiro.

Pode ser por isso que não sou amada por muito tempo. Homens têm medo de tanto tudo assim. E eu peço mais. Mais palavras, mais olhares, mais presença, mais amor. Até quando não falo nada estou pedindo exatamente tudo isso. Mesmo sem querer.

Não dá nem tempo de eles me amarem. Podem até gostar no início. Mas o problema é se eu começo a gostar. Aí meus olhos me entregam, exigem. Minha ansiedade é estampada no meu rosto. Porque, além de ser exigente, tenho pressa.

E lá se vai mais um amor. Simplesmente porque eu não tive tempo de aprender a ser menos, a ter calma, a relaxar. É isso que me pedem sempre, não é? Já sei de tudo. Mas não adianta. Não consigo me conter.

E, se ainda não consegui mudar, fazer o quê? Só me basta fechar os olhos e esperar surgir alguém que me entenda e ame como eu amo – não gota a gota, mas com a grandiosidade de um oceano. Por inteiro.

Coração sem barreiras

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Invejo as pessoas que amam sem medo, que se jogam, que, mesmo depois de uma rasteira, levantam de queixo erguido e não desistem de amar. Como é bonito ver o amor crescendo em um coração sem barreiras…
O amor é uma coisa tão linda, era pra ser leve e intenso sempre. Mas nem todo mundo está disposto de verdade a tentar, a juntar a bagagem com a do outro, a pagar o preço.

Amar traz um monte de efeitos colaterais. Às vezes dor, às vezes taquicardia, às vezes moleza no corpo, às vezes insônia. E amar dá medo, muito medo.

A gente pensa em todas as possibilidades de dar errado, de ser abandonado, traído, ignorado. E mal lembra que há também a possibilidade de dar tudo certo, de ser intenso e tranquilo ao mesmo tempo, de não doer tanto assim, de ser pra sempre ou de não ser e mesmo assim ser bom enquanto durar.

É por isso que invejo quem se abre pra isso tudo. É inspirador. Faz a gente acreditar que é possível, que a questão não é não ter medo, é amar com medo mesmo, só pra sentir o gosto do amor, pelo menos uma vez.

Quem me faz feliz

felizDurante muito tempo busquei um amor, um relacionamento para preencher um vazio que sentia no peito. Achava que ser amada por alguém que não fosse da minha família era a chave para eu ter certeza de que tinha valor. Condicionei por anos minha felicidade ao surgimento de um homem que chegaria resolvendo todos os meus problemas: da autoestima à companhia pra ir ao cinema. Até lá, aguardaria infeliz e sozinha o resgate. Depositei responsabilidade demais nas costas de um desconhecido que não sabia nem se e quando chegaria.

Mas a maturidade me ensinou que seria justamente o contrário. Continue lendo

Estou apaixonada

amorMeu coração anda acelerado, mal para dentro do peito. Está com vontade de pular pela boca, ganhar o mundo, entrar em outros corações. Ando suspirando pelos cantos, com um sorriso quase constante no rosto.

Sinto mais vontade de me arrumar, de contar para todo mundo o que se passa comigo. Quero pular e cantarolar na rua sem me importar com os dedos que me apontarão, os olhares que me julgarão. Me coço para não sair por aí abraçando quem passar na minha frente.

Tenho chorado por pouco e por muito. Qualquer vídeo, palavra, pessoa que ative esse amor me provoca lágrimas. Minha vontade é de apenas amar, amar e amar.

Sim, estou apaixonada. Com todos os efeitos que um sentimento assim pode causar. Com todas as bobeiras que a gente é impulsionado a fazer quando está desse jeito. Com todas as borboletas no estômago que aparecem nessa situação.

Estou apaixonada mesmo, mas não é por um homem. Antes que olhos se esbugalhem e bocas se abram, explico: ESTOU APAIXONADA PELA VIDA!

Passei anos lutando para sair de crises, para não chorar de tristeza, para não parecer tão ingrata com tudo de bom que ganhei. Sentia-me péssima por não conseguir ser feliz mesmo com tanta coisa boa ao meu redor.

Mas nunca desisti de correr atrás da felicidade. Às vezes ela me parecia impossível, admito. Só que lá no fundo, bem fundo, eu ainda alimentava a esperança, esse bichinho verde que nos morde e nos mantém vivos.

Nos dois últimos anos, desde que voltei para Brasília, me dediquei mais intensamente a essa busca. Fiz terapia individual e em grupo, li livros, tomei remédio, rezei, conversei com pessoas, caí, levantei, caí mais um monte de vezes. E todos esses pedacinhos de coisas juntos foram me preparando para voar.

E é assim que me sinto hoje: pronta para voar. O empurrão que faltava começou a acontecer há dois meses, desde que entrei em um curso de coaching (uma ferramenta mundialmente usada para ajudar as pessoas a alcançarem metas). Matriculei-me para aprender a ajudar melhor as pessoas, mas, que boa surpresa, a pessoa mais ajudada, claro, fui eu.

balões voandoNão atribuo tudo o que está acontecendo dentro de mim só ao coaching, não, porque eu já vinha de um processo de autodescoberta. Mas ele tem sido, digamos, a cereja do bolo. Além de ganhar uma profissão extra, aprendi como posso reprogramar meu cérebro para ele trabalhar a meu favor. Aprendi como a forma como me comunico com o mundo altera meus resultados.

E, principalmente, reforcei uma ideia que já me foi passada desde que nasci: a linguagem do amor é a mais poderosa arma contra todos os males!

A história é longa, quem quiser me procure para saber detalhes (e eu terei muito prazer em ajudar todo mundo a crescer junto comigo). O fato é que me sinto como se tivesse trocado as lentes velhas de um óculos, feito cirurgia de miopia (de novo), subido no alto de uma montanha para ver a cidade. Minha visão está diferente e, por isso, minha vida está muito, muito melhor – mesmo sem grandes coisas terem acontecido AINDA.

Hoje agradeço com a alma por tudo que tenho. Tenho a certeza de que o melhor está por vir. Consigo sonhar e acreditar de verdade que tudo é possível. Tenho ideias novas todo dia. E sinto cada vez mais e mais vontade de fazer a diferença neste mundo.

Aguardem para ver a nova versão deste blog, das minhas palavras, das minhas ações. A nova versão da Adriana Caitano. Feliz de verdade!

Ah, só pra acrescentar: estou me apaixonando progressivamente por uma pessoa também – EU!

Quando você chegar

Oi, tudo bem? Desculpa, não quero te incomodar assim com minha ansiedade fora de hora, mas preciso falar. De qualquer jeito, acho até bom você começar a conviver com ela, minha ansiedade, porque ela não deve me abandonar até você aparecer. Logo, vai ter que se acostumar.

Então, é que queria fazer uns pedidos, coisa boba. Nem sou tão exigente nem pidona, mas preciso deixar algumas coisas claras, tudo bem pra você? Bom saber que me entende, afinal, se não entendesse, pelo menos um pouquinho, nem chegaria à minha vida, não é mesmo?

Bom, primeiro quero pedir pra, quando você chegar, por favor, não vir dirigindo um Camaro, uma Ferrari ou uma Hilux. Sem querer ser preconceituosa, mas já sendo, não costumo admirar pessoas que precisam ostentar exageradamente sua conta bancária para chamar a atenção. Não é nada pessoal. É meu jeito.

Se puder surgir sorrindo também seria ótimo. É que adoro pessoas de bom humor, que me façam rir, sem serem bobas, claro. E pode deixar a barba por fazer. Homem fica um charme sorrindo com a barba por fazer. Com a roupa não me importo tanto. Não sou exatamente o modelo de estilo. Então, se vestindo de acordo com a sua idade, tá muito bom.

Ah, não precisa trazer flores. A última vez que recebi uma rosa ela veio seguida de um abraço de despedida e muito choro. Deixa isso pra depois. Chocolate também é dispensável. Aliás, nem poderei comê-los, então é melhor não me fazer passar vontade.

Se você for normal, uma pessoa normal que tem uma vida normal e fala coisas normais, vai ser lindo. Já conheci príncipes, teóricos, filósofos, dançarinos, visionários, comediantes e artistas. E, acredite, eles seriam bem melhores se fossem simplesmente normais.

Há outra coisa sobre a qual você não pode se descuidar: a altura. Você sabe, não me sinto confortável em ver alguém me apontando na rua porque estou me esforçando para diminuir meu 1,83 metro de altura para dar a mão ao companheiro baixinho. Novamente peço desculpas pelo preconceito, mas essa é uma cláusula sobre a qual não abro mão. Dê um jeito de ser alto, por favor!

No mais, sei lá, venha preparado. Eu não sou uma pessoa muito fácil de lidar. Sou do tipo que não bebe, não é muito boa em piadas, se irrita com quase qualquer coisa e não é assim a experiência e maturidade em pessoa. Será que você vai me aguentar? Não se assuste! Eu estou disposta a me desfazer de alguns defeitos que há muito têm me incomodado mesmo. Espero ter melhorado até sua chegada.

Por último, não que eu esteja desesperada ou morrendo de pressa, mas bem que você poderia não demorar tanto, né? Porque todos esses pedidos que fiz não fazem nenhum sentido se você não vier.

E eu troco, juro, quase todas essas exigências por ver você surgindo logo, de verdade, mesmo com carrão, flores, bombons, roupa feia, cara séria e sem barba. Mas, se puder não ser baixinho, ainda agradeço.

//

Do amor  – Tulipa Ruiz


O meu amor sai de trem por aí
e vai vagando degavar para ver quem chegou
O meu amor corre devagar, anda no seu tempo
que passa de vez em vento

Como uma história que inventa o seu fim
quero inventar um você para mim
Vai ser melhor quando te conhecer

Olho no olho
e flor no jardim
Flor, amor
Vento devagar
vem, vai, vem mais

//

Dois – Tiê


Como dois estranhos,
Cada um na sua estrada,
Nos deparamos, numa esquina, num lugar comum.
E aí? quais são seus planos?
Eu até que tenho vários.
Se me acompanhar, no caminho eu possso te contar.
E mesmo assim, queria te perguntar,
Se você tem ai contigo alguma coisa pra me dar,
Se tem espaço de sobra no seu coração.
Quer levar minha bagagem ou não?

E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem
E você vai me ensinar as suas verdades
E se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio.
De dia, vou me mostrar de longe.
De noite, você verá de perto.
O certo e o incerto, a gente vai saber.
E mesmo assim,
Queria te contar que eu talvez tenha aqui comigo,
Eu tenho alguma coisa pra te dar.
Tem espaço de sobra no meu coração.
Eu vou levar sua bagagem e o que mais estiver à mão.

Ser levada por inteiro

Natália Klein, redatora, escritora, psicótica e a Nikita do Macho Man

Peço desculpas a vocês (poucos) que gostam de ler este blog. Ando escrevendo tantas coisas obrigatórias ultimamente que me faltam tempo, paciência e inspiração para textos legais sobre a vida, que eu realmente gosto de fazer.

Mas, para não deixar vocês na mão, coloco aqui o texto de uma escritora que conheci há pouquíssimo tempo e já admiro muito – Natália Klein. Eu já a assistia na TV no papel da gótica Nikita da série Macho Man. Mas uma amiga comentou que ela era blogueira também e que seu blog tinha virado um programa no Multishow, o Adorável Psicose. Aí eu descobri que ela fala tudo que eu gostaria de falar, mas com muito mais humor e talento.

O primeiro texto dela que escolhi é o “A afetividade torta”. Deliciem-se. Eu concordo em número e grau com ela:

A afetividade torta, por Natália Klein

“Acho que o maior problema dos relacionamentos contemporâneos é da ordem gastronômica. Da forma como eu vejo – e talvez esteja influenciada pela fome da madrugada – as pessoas são como grandes tortas de sabores variados. Algumas a gente bate o olho e já sabe que vai gostar, às vezes só pelo cheiro. Outras vezes, a gente segue a intuição e só depois descobre que é alérgico a nozes, ou pior, que a torta em questão curte sertanejo universitário.

Mas, ao contrário do que você possa estar pensando, o problema dos relacionamentos contemporâneos não reside no fato de que somos tortas gigantes. Tortas são bonitas e gostosas, na grande maioria das vezes – exceto nas festas de aniversário em escritórios no centro da cidade. A tristeza da coisa está na constatação de que estamos vivendo uma espécie de comidaaquilorização da afetividade. Isso significa que, devido a alta oferta de tortas no mercado, ninguém consegue se focar em apenas um sabor.

O que temos hoje é uma porção de tortas sendo vorazmente garfadas e deixadas de lado, aos pedaços, disformes, tristes. Todo mundo quer um pedacinho de torta, uma fatiazinha fina do tipo “estou-de-dieta-não-quero-muito”. Tem sempre alguém querendo dar uma mordiscada, uma lambidinha, uma passadinha de dedo marota. O que ninguém quer – ou tem coragem de fazer – é arriscar e levar a torta inteira para casa.

E essa é a grande lástima da nossa geração. Estamos acostumados a tirar lasquinhas de várias sobremesas e levar à balança do restaurante para pesar. É a insustentável leveza da torta mousse de chocolate e do cheesecake de framboesa. Estamos acostumados a ter muitas, muitas opções de comida. E de pessoas. Conheço gente que tem mais de 1.000 amigos no Facebook. Como se alguém fosse fisicamente capaz de ter mil amigos.

E qual é o resultado disso? Tortas garfadas e destroçadas, sem lugar cativo na geladeira de ninguém, vagando por aí, pelas noitadas, pelas festas, tristes, tortas. E, pouco a pouco, elas vão perdendo a doçura. Vão se tornando descrentes, azedas, estragadas pelo ataque dos garfos despretensiosos.

Somos tortas. Claro que somos comidas. Mas o que eu queria mesmo era experimentar a sensação de ser a preferida de alguém. Aquela que é levada dentro do pacote – o pacote completo, com todos os defeitos e qualidades, com todas as garfadas sofridas, com tudo aquilo que faz de mim a torta gigante que eu sou. Estou farta de me pedirem pedacinhos. Quero ser levada por inteiro”.

Romance abóbora 2.0

No tempo da minha avó, existia uma coisa chamada romance. As moças sentavam na praça e trocavam piscadelas e sorrisos com os rapazes do outro lado. Quando os olhares se cruzavam mais de três vezes, começava um namoro. Trocar palavras, então, era quase noivado. E depois disso os dois passavam a vida inteira se descobrindo, vivendo aquilo tudo à prestação, como se aprecia uma panela de brigadeiro feito em casa: devagar e aos poucos, para sentir bem o gostinho de cada colherada.

Sim, naquela época havia restrições, casamentos armados a contragosto, caretice. Mas também tinha o flerte, o suspiro, o entrelaçar de mãos que provocava arrepios, o passear na praça que deixava saudade. Tinha o romance original, sonhador e constante.
A minha geração criou o romance abóbora. Música alta e dançante. Duas pessoas cruzam olhares de interesse. Ela dança com mais ânimo, sorri o tempo todo, faz questão de ir ao banheiro ou dar uma volta sem destino só para esbarrar nele sem querer e ser percebida. Ele coça a barba sutilmente, reforça a intensidade do olhar em busca de um aval. Sinal verde dado, em pouco tempo ele se aproxima.

Eles dançam uma vez, descobrem os devidos nomes e, talvez, profissões. Sorriem de cada besteira que o outro diz. Ele lhe oferece uma bebida, eles brindam e sorriem mais um pouco. Começam a se tocar quase sem querer, dando sinais de intimidade. Mais uma música e o frio na barriga. Ele abraça sua cintura, ela começa a se entregar. As mãos se entrelaçam, nariz e orelha se encontram, bochechas enrubescem ao sentir a textura da pele que encosta. Os olhos se fecham e pronto. A partir daquele instante, eles são um casal.

Um casal romântico, que troca carinhos e elogios, anda de mãos dadas e se beija o tempo todo. Ele fala, ela fala – da profissão, da cidade, do lugar em que moram, dos amigos, das festas. Mas tudo romanceado. Nessa hora, ninguém tem defeitos nem problemas. Parecem se conhecer há várias vidas. São dois apaixonados, nasceram um para o outro.

A noite chega ao fim, a carona quer ir embora. Na despedida dolorosa, o beijo é intenso, o olhar é de promessa. Vontade de ficar junto naquele encontro de almas gêmeas. Até que vem a bendita frase, parecendo o beliscão que acorda o sonhador, a água fria que cala a serenata:
– Me dá seu telefone? (Ou – pior – o Facebook)

Lá se vão o romance, a intimidade, o quase amor eterno. Voltam a ser dois desconhecidos que sequer têm certeza de que aqueles números timidamente ditados e anotados são verdadeiros.
– Eu te ligo
– Aham, sei…
– Ligo sim. A gente combina alguma coisa
– Beleza. Tchau.

E cada um vai para o seu lado. Ele, cansado e meio tonto, só quer capotar na cama. Ela até demora a pegar no sono, lembra os detalhes daquele romance, do beijo, das palavras. E dorme. Com sorte, algum (muito) tempo depois, em alguma esquina da vida, eles se esbarram. Quando muito, trocam uma ou duas palavras. Como dois desconhecidos que são, dão as costas e seguem. E fim.

Ficou um vazio? Faltou alguma coisa? Pois é. Nos contos de fadas eles viveriam felizes para sempre. Mas nos contos modernos as coisas são assim, fugidias, efêmeras. O romance que era lindo se acabou, era vidro e se quebrou, antes de começar de verdade. Virou abóbora após as doze badaladas. E os dois partiram sem deixar o sapatinho, sem guardar lembranças nem mágoas, sem olhar para trás. Porque para abóbora moderna, 2.0 última geração, é assim: a fila anda, a noite é uma criança e o romance igual ao da minha avó não está com nada.

É por essas e outras que acredito ter nascido tarde demais…

Porque, no fundo, só queremos ser especiais…

Quem me conhece ou acompanha o blog sabe que eu adoro escrever sobre amor, sobre achar alguém, sobre não ter achado. Adoro falar de sentimentos. E sou do tipo sonhadora, que acredita que em algum lugar do mundo há uma pessoa nascida para estar comigo. Ele não precisa ser lindo, rico, divertido, sensual, inteligente, bem relacionado, amigo, carinhoso e alto. Ter todas essas características o tornaria perfeito e não é alguém assim que eu procuro. Quero só estar com alguém que me faça sentir especial, amada. Alguém para quem eu goste de olhar nos olhos e me sentir feliz por estar ali, naquele momento. E que tenha defeitos, para eu aprender a lidar com eles e observar os meus.

Acho que no fundo é isso que todos nós queremos. Dos mais pegadores e galinhas aos avessos a relacionamentos, um dia todo mundo sente falta de alguém especial que o faça sentir especial. E, ora, falsa modéstia à parte, nossa busca do dia a dia é essa mesmo: ser especial para uma pessoa, para um grupo, para o mundo. Por mais autosuficiente que seja – e não acredito que isso exista -, ninguém quer ser odiado pela humanidade inteira. Ser especial para um indivíduo que seja é uma delícia. E ter um desses por perto, melhor ainda.

Dito isso, trago abaixo o texto que me inspirou a falar sobre ser especial. O Ivan Martins, diretor-executivo da revista Época (sim, minha concorrente, mas tenho que reconhecer o talento de quem é talentoso, né?), é um desses caras – especiais – que dá vontade de conhecer. Todo texto dele é delicado, profundo, mesmo falando de coisas tão genéricas como o amor. Dessa vez não é diferente. Vale a pena ler, com muita atenção, o que ele diz sobre o assunto. E levar suas palavras para a vida… Delicie-se:

Alguém especial
É isso que você quer – ou um monte de gente basta?
Ivan Martins

“Ficar com muita gente é fácil”, diz um amigo meu, com pouco mais de 25 anos. “Difícil é achar alguém especial”.

Faz algum tempo que tivemos essa conversa. Ele tentava me explicar por que, em meio a tantas garotas bonitas, a tantas baladas e viagens, ele não se decidia a namorar.

Ele não disse que estava sobrando mulher. Não disse que seria um desperdício escolher apenas uma. Não falou em aproveitar a juventude ou o momento e nem alegou que teria dificuldade em escolher. Disse apenas que é difícil achar alguém especial.

Na hora, parado com ele na porta do elevador, aquilo me pareceu apenas uma desculpa para quem, afinal, está curtindo a abundância. Foi depois que eu vim a pensar que existe mesmo gente especial, e que é difícil topar com uma delas.

Claro, o mundo está cheio de gente bonita. Também há pessoas disponíveis para quase tudo, de sexo a asa delta. Para encontrar gente animada, basta ir ao bar, descobrir a balada, chegar na festa quando estiver bombando. Se você não for muito feio ou muito chato, vai se dar bem. Se você for jovem e bonita, vai ter possibilidade de escolher. Pode-se viver assim por muito tempo, experimentando, trocando de gente sem muita dor e quase sem culpa, descobrindo prazeres e sensações que, no passado, estariam proibidos, especialmente às mulheres.

Mas talvez isso tudo não seja suficiente.

Talvez seja preciso, para sentir-se realmente vivo, um tipo de sensação que não se obtém apenas trocando de parceiro ou de parceira toda semana. Talvez seja preciso, depois de algum tempo na farra, ficar apaixonado. Na verdade, ficar apaixonado pode ser aquilo que nós procuramos o tempo inteiro – mas isso, diria o meu jovem amigo, exige alguém especial.

Desde que ele usou essa fatídica expressão, eu fiquei pensando, mesmo contra a minha vontade, sobre o que seria alguém especial, e ainda não encontrei uma resposta satisfatória. Provavelmente porque ela não existe.

Você certamente já passou pela sensação engraçada de ouvir um amigo explicando, incansavelmente, por que aquela garota por quem ele está apaixonado é a mulher mais linda e mais encantadora do mundo – sem que você perceba, nela, nada de especial. OK, a garota é bonitinha. OK, o sotaque dela é charmoso. Mas, quem ouvisse ele falando, acharia que está namorando a irmã gêmea da Mila Kunis. Para ele ela é única e quase sobrenatural, e isso basta.

Disso se deduz, eu acho, que a pessoa especial é aquela que nos faz sentir especial.

Tenho uma amiga que anda apaixonada por um sujeito que eu, com a melhor boa vontade, só consigo achar um coxinha. Mas o tal rapaz, que parece que nasceu no cartório, faz com que ela se sinta a mulher mais sensual e mais arrebatada do planeta. É uma química aparentemente inexplicável entre um furacão e um copo de água mineral sem gás, mas que parece funcionar maravilhosamente. Ela, linda e selvagem como um puma da montanha, escolheu o cara que toma banho engravatado, entre tantos outros que se ofereciam, por que ele a faz sentir-se de um modo que ninguém mais faz. E isso basta.

É preciso admitir que há gente que parece especial para todo mundo. Não estou falando de atores e atrizes ou qualquer dessas celebridades que colonizam as nossas fantasias sexuais como cupins. Falo de gente normal extremamente sedutora. Isso existe, entre homens e entre mulheres. São aquelas pessoas com quem todo mundo quer ficar. Aquelas por quem um número desproporcional de seres humanos é apaixonado. Essas pessoas existem, estão em toda parte, circulam entre nós provocando suspiros e viradas de pescoço, mas não acho que sejam a resposta aos desejos de cada um de nós. Claro, todo mundo quer uma chance de ficar com uma pessoa dessas. Mas, quando acontece, não é exatamente aquilo que se imaginava. Você pode descobrir que a pessoa que todo mundo acha especial não é especial para você.

Da minha parte, tendo pensado um pouco, acho que a pessoa especial é aquele que enche a minha vida. Ela é a resposta às minhas ansiedades. Ela me dá aquilo que eu nem sei que eu preciso – às vezes é paz, outras vezes confusão. Eu tenho certeza que ela é linda por que não consigo deixar de olhá-la. Tenho certeza que é a pessoa mais sensual do mundo, uma vez que eu não consigo tirar as mãos dela. Certamente é brilhante, já que ela fala e eu babo. E, claro, a mulher mais engraçada do mundo, pois me faz rir o tempo inteiro. Tem também um senso de humor inteligentíssimo, visto que adora as minhas piadas. Com ela eu viajo, durmo, como, transo e até brigo bem. Ela extrai o melhor e o pior de mim, faz com que eu me sinta inteiro.

Deve ser isso que o meu amigo tinha em mente quando se referia a alguém especial. Se for isso vale a pena. As pessoas que passam na nossa vida são importantes, mas, de vez em quando, alguém tem de cavar um buraco bem fundo e ficar. Essas são especiais e não são fáceis de achar.

//
Tão bem – Lulu Santos

Ela me encontrou
Eu tava por aí
Num estado emocional tão ruim
Me sentindo muito mal
Perdido, sozinho
Errando de bar em bar
Procurando não achar

Ela demonstrou tanto prazer
De estar em minha companhia
Eu experimentei uma sensação
Que até então não conhecia
De se querer bem
De se querer quem se tem…

E ela me faz tão bem
E ela me faz tão bem
Que eu também quero
Fazer isso por ela…

/
Tudo certo – Luiz Possi

Calma, tenha calma
Minha previsão do tempo
Diz que hoje não vai chover
Alma, minha alma
Voa leve pelo vento
E me leva até você

Você me faz bem
Quando chega perto
Com esse seu sorriso aberto
Muda o meu olhar
Meu jeito de falar
Junto de você fica tudo bem, tudo certo

Sei, eu sei que vejo mais do que eu deveria
Mas é que eu sou mesmo assim
Sinto, eu sinto tanto a sua falta todo dia
Volta e traz você pra mim
Quem mandou você passar pelo meu caminho
Quantas vezes eu vou ter que repetir
Quantas vezes?

/
Equalize – Pitty

Às vezes se eu me distraio
Se eu não me vigio um instante
Me transporto pra perto de você
Já vi que não posso ficar tão solta
Me vem logo aquele cheiro
Que passa de você pra mim
Num fluxo perfeito

Enquanto você conversa e me beija
Ao mesmo tempo eu vejo
As suas cores no seu olho, tão de perto
Me balanço devagar
Como quando você me embala
O ritmo rola fácil
Parece que foi ensaiado

E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é
Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Adoro essa sua cara de sono
E o timbre da sua voz
Que fica me dizendo coisas tão malucas
E que quase me mata de rir
Quando tenta me convencer
Que eu só fiquei aqui
Porque nós dois somos iguais

Até parece que você já tinha
O meu manual de instruções
Porque você decifra os meus sonhos
Porque você sabe o que eu gosto
E porque quando você me abraça
O mundo gira devagar

E o tempo é só meu
E ninguém registra a cena
De repente vira um filme
Todo em câmera lenta
E eu acho que eu gosto mesmo de você
Bem do jeito que você é

Eu vou equalizar você
Numa frequência que só a gente sabe
Eu te transformei nessa canção
Pra poder te gravar em mim

Palavras sobre mais um fim

Não era hoje (por Adriana Caitano)

Acabou antes de ser.
Mas era um amor em potencial,
cheio de códigos e semelhanças,
brincadeiras e lembranças.

Começou com troca de olhares,
palavras tímidas, vontade de ficar perto.
E foi ganhando espaço,
amizade, admiração, gesto.

Tinha risos e abraços,
gosto bom de adolescência,
tinha dança, planos, colo,
tinha até cafuné,
pensamentos unidos, coincidência.

Mas tinha também distância, saudade,
caminhos opostos.
Tinha cobrança e tinha desapego,
tinha um mais que o outro,
o não querer tanto,
o querer por sossego.

Tinha a razão,
tinha o medo,
tinha a mensagem guardada.
Tinha coisa demais:
ou não tinha de ser
ou tinha a hora errada…

//
Meio Almodóvar – Juca Novaes

Foi só um ensaio
Foi só um insight
Durou muito pouco
Doeu muito mais
Foi trailer de filme
Ensaio de orquestra
Foi jogo suspenso
No auge da festa
Foi curto e intenso
Canção de Caymmi
Foi meio Almodóvar
Foi meio Fellini
Foi como um cometa
No céu da cidade
Foi breve promessa
De felicidade
Eu morro de saudades do que era pra viver
E vivo da viagem de reencontrar você
Meus olhos do passado num futuro que nem sei
De tantas outras vidas
Mil pontos de partida
E todos os detalhes do que não aconteceu
Repetem o roteiro pra mostrar você e eu
O filme recomeça e nunca chega até o fim
E nessa nova vida
Não tem a despedida
Foi só a voz guia
Foi nem a metade
Foi estrela guia
Foi tanta verdade
Um mero rascunho
Mas foi divindade
Grafite no muro
Da minha saudade
Eu morro de saudades…