Romance abóbora 2.0

No tempo da minha avó, existia uma coisa chamada romance. As moças sentavam na praça e trocavam piscadelas e sorrisos com os rapazes do outro lado. Quando os olhares se cruzavam mais de três vezes, começava um namoro. Trocar palavras, então, era quase noivado. E depois disso os dois passavam a vida inteira se descobrindo, vivendo aquilo tudo à prestação, como se aprecia uma panela de brigadeiro feito em casa: devagar e aos poucos, para sentir bem o gostinho de cada colherada.

Sim, naquela época havia restrições, casamentos armados a contragosto, caretice. Mas também tinha o flerte, o suspiro, o entrelaçar de mãos que provocava arrepios, o passear na praça que deixava saudade. Tinha o romance original, sonhador e constante.
A minha geração criou o romance abóbora. Música alta e dançante. Duas pessoas cruzam olhares de interesse. Ela dança com mais ânimo, sorri o tempo todo, faz questão de ir ao banheiro ou dar uma volta sem destino só para esbarrar nele sem querer e ser percebida. Ele coça a barba sutilmente, reforça a intensidade do olhar em busca de um aval. Sinal verde dado, em pouco tempo ele se aproxima.

Eles dançam uma vez, descobrem os devidos nomes e, talvez, profissões. Sorriem de cada besteira que o outro diz. Ele lhe oferece uma bebida, eles brindam e sorriem mais um pouco. Começam a se tocar quase sem querer, dando sinais de intimidade. Mais uma música e o frio na barriga. Ele abraça sua cintura, ela começa a se entregar. As mãos se entrelaçam, nariz e orelha se encontram, bochechas enrubescem ao sentir a textura da pele que encosta. Os olhos se fecham e pronto. A partir daquele instante, eles são um casal.

Um casal romântico, que troca carinhos e elogios, anda de mãos dadas e se beija o tempo todo. Ele fala, ela fala – da profissão, da cidade, do lugar em que moram, dos amigos, das festas. Mas tudo romanceado. Nessa hora, ninguém tem defeitos nem problemas. Parecem se conhecer há várias vidas. São dois apaixonados, nasceram um para o outro.

A noite chega ao fim, a carona quer ir embora. Na despedida dolorosa, o beijo é intenso, o olhar é de promessa. Vontade de ficar junto naquele encontro de almas gêmeas. Até que vem a bendita frase, parecendo o beliscão que acorda o sonhador, a água fria que cala a serenata:
– Me dá seu telefone? (Ou – pior – o Facebook)

Lá se vão o romance, a intimidade, o quase amor eterno. Voltam a ser dois desconhecidos que sequer têm certeza de que aqueles números timidamente ditados e anotados são verdadeiros.
– Eu te ligo
– Aham, sei…
– Ligo sim. A gente combina alguma coisa
– Beleza. Tchau.

E cada um vai para o seu lado. Ele, cansado e meio tonto, só quer capotar na cama. Ela até demora a pegar no sono, lembra os detalhes daquele romance, do beijo, das palavras. E dorme. Com sorte, algum (muito) tempo depois, em alguma esquina da vida, eles se esbarram. Quando muito, trocam uma ou duas palavras. Como dois desconhecidos que são, dão as costas e seguem. E fim.

Ficou um vazio? Faltou alguma coisa? Pois é. Nos contos de fadas eles viveriam felizes para sempre. Mas nos contos modernos as coisas são assim, fugidias, efêmeras. O romance que era lindo se acabou, era vidro e se quebrou, antes de começar de verdade. Virou abóbora após as doze badaladas. E os dois partiram sem deixar o sapatinho, sem guardar lembranças nem mágoas, sem olhar para trás. Porque para abóbora moderna, 2.0 última geração, é assim: a fila anda, a noite é uma criança e o romance igual ao da minha avó não está com nada.

É por essas e outras que acredito ter nascido tarde demais…

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