Mala, cuia e despedida

Quando eu vim para São Paulo, Steve Jobs estava vivo e o iPad não existia, iPhone era para poucos, Orkut não era peça de museu, Twitter era só para os mais descolados e quase ninguém usava o Facebook, que era muito chato. A Dilma não era presidente, a linha amarela do metrô não funcionava, o Justin Bieber não tinha lançado a própria biografia, o Bin Laden estava vivo. A blusa xadrez não estava na moda, a Sandy não era devassa, o mundo não tinha 7 bilhões de habitantes.

Se tanta coisa no planeta mudou em menos de dois anos, imagina eu! Definitivamente, sou outra pessoa. Fiz coisas das quais não me orgulho – fui maledicente, rancorosa e chorona. Mas tantas outras de inflar o peito de alegria – fiz amigos, aprendi lições e a perdoar.

Aos 15 anos, quando vi São Paulo do alto de um prédio pela primeira vez, decidi que queria viver aqui, um dia e para sempre. Queria saber como era ser e estar nesta cidade, com glamour, avanço e sons. Aos quase 24, consegui. E conheci outro lugar, mais real, mais concreto, mais só. E agora, aos 25, decidi que o para sempre teria que acabar.

Não vivi aqui nem metade do que sonhei que poderia. Mas também nem metade do que vivi eu sequer sonhei que poderia (deu pra entender?). Fiz e desfiz mitos, criei e reforcei laços, valorizei o que não observava, caí e me levantei. Chorei muitas vezes. Gargalhei outras tantas. Cresci (e engordei também…).

Agora volto para casa, com mala, cuia e saudade. Saio na hora certa, sem mágoas e com um sorriso constante tocando as orelhas. Um alívio misturado com a certeza de dever cumprido. Uma saudade de quem me tornei, do que vivi, de quem conheci. E um agradecimento sem fim a quem me acolheu, me entendeu, me surpreendeu. A São Paulo e a cada pedacinho dela que levo guardado na memória, o meu muito obrigada e um até logo!

Eu e São Paulo – Bodas de papel!

Hoje, dia 25 de janeiro, exatamente no dia do aniversário de 457 anos de São Paulo, completo UM ANO nesta cidade maluca. Nem tinha me tocado de que cheguei aqui num feriado, quando a famosa terra da garoa comemorava mais um ano de vida e eu chegava para começar uma nova vida.

Um ano, quem diria. Bodas de papel! E, como em todo casamento, nossa relação teve altos e baixos. Cheguei cheia de esperança e sonhos, entrei em crise umas muitas vezes, chorei outras tantas, me emocionei. Já quis abraçar a cidade inteira de uma vez e guardar a Avenida Paulista numa caixinha, só pra ter ao meu alcance todo dia.

A primeira vez que pisei aqui não fiz como o Caetano, chamando “de mal gosto o que vi”, pelo contrário. Fiquei literalmente boquiaberta com a grandiosidade dos prédios ao vê-los do alto de um terraço no, sei lá, vigésimo andar. Eu tinha 15 anos e só levei daqui a promessa de que voltaria pra valer. E voltei.

Há 12 meses, quando vim para ficar (e fui super bem recebida por uma amiga que me abrigou), a história era outra. Mudança radical, saudades e lembranças deixadas para trás. Tinha vindo atrás de um sonho. Ainda não sei bem qual ele é, mas estou descobrindo aos poucos. Ao longo desse ano tive muito tempo para pensar e mudar de ideia. E como eu gosto de pensar enquanto caminho pela Paulista

Em São Paulo vivi e aprendi tantas coisas que nem sei se vou me lembrar. Assim de relance me vem à mente o jeito “mano” de falar, o “meu” encaixado em toda a frase em tom de interjeição que hoje insiste em saltar da minha boca sem eu pedir. E o “às quintas ou sextas-feiras” que aqui se diz “de quinta”, “de sexta”?! “Balada”, “ponto de ônibus”, “cOmida, “magina” também foram incorporados ao meu vocabulário, antes tão brasiliense. “Embaçado” quase saiu algumas vezes, mas me recusei a deixar.

No início, me fascinava com as ruas, as roupas, até os ônibus. Devagarzinho fui me acostumando, achando tudo quase normal. Fui a uma Virada Cultural, conheci restaurantes deliciosos, a Vila Madalena e o samba rock – acreditem, do jeito que ele é aqui, só existe aqui mesmo. Fui a vários bares e, ainda assim, continuei sem beber. Ouvi Lady Gaga e rock alternativo umas trocentas vezes, involuntariamente, mas nem doeu.

Fiz amigos incríveis e queridos, fui à José Paulino comprar roupas, à 25 de Março comprar bugigangas, à Liberdade comer yakisoba, só umas duas vezes ao Mercadão Municipal – a trabalho -, uma à Sala São Paulo e nenhuma ao Museu do Futebol, ao Masp ou à Pinacoteca. Vi o último jogo do Palmeiras no antigo Palestra Itália (uma derrota de 1 x 0 para o Boca, mas valeu), ao teatro SÓ três vezes e a poucos grandes shows – todos de graça! Mas ao cinema passei a ir mais, com promoções que só existem aqui.

Reclamei do calor insuportável em fevereiro, do frio congelante em maio, das chuvas intermináveis desde dezembro. Mesmo morando ao lado do melhor forró daqui (MESMO!), passei a frequentá-lo bem menos que na minha terra. Coloquei um piercing na orelha, cortei o cabelo por 40 REAIS, passeei no Ibirapuera e voltei a pé. Comecei a conviver – bem – com DOIS cachorros dentro de casa.

Escrevi para uma revista feminina e outra infantil, depois consegui um emprego para escrever sobre política. Revi velhas amizades, dei abrigo a outras, me endividei usando o cheque especial, comprei um fogão, um ferro de passar roupa, um ventilador, uma cama de casal e um espelho. Consegui uma casa exatamente ao lado do trabalho e me livrei dos engarrafamentos tipicamente paulistanos. Entrei na academia, engordei vários quilos, não aprendi a cozinhar nada além de macarrão.

Me viciei no Twitter, depois no Facebook e comecei a assistir Friends da primeira temporada. Fui ao litoral um dia só, quando estava chovendo. Quase me apaixonei umas quatro vezes – nenhuma deu certo. E aceitei que talvez eu não sirva pra isso mesmo. Passei a dormir muito mais tarde, fiquei mais solitária por querer – fiz do meu quarto uma ilha. Chorei de saudade de casa, mas não quis voltar. Pensei em ir embora algumas vezes, mas não quis voltar. Tive outras crises, alguns momentos de euforia, outros de melancolia. Nunca aprendi a relaxar.

Mas, relembrando todos esses momentos agora, pelo menos uma certeza eu tive: durante essas 8.760 horas que fui uma paulistana forasteira, juro, fui muito feliz! Que venham outros 365 dias nessa cidade que, sim, eu amo tanto!

Playlist do dia – Virada Cultural / Simonal

Ok, fui burra mesmo de não ter aproveitado direito o incrível evento que aconteceu neste fim de semana em São Paulo. Mas é certo que os poucos momentos que curti da Virada Cultural foram bem intensos. Nunca vi tanta gente, de tantos cabelos, tantas cores, tantas caras e roupas e sapatos diferentes. O metrô – de madrugada – com umas 200 pessoas por metro quadrado se esmagando e empurrando, mas sem o estresse que costuma acompanhar os trabalhadores que passam por coisa parecida nos dias úteis e normais. Todos – jovens emos, casais velhinhos e crianças – empolgados e sorridentes porque iam curtir várias apresentações artísticas de graça em algum lugar desta babilônia tupiniquim. E eu fui parar na Praça da República, no palco do samba. Cheguei já no meio do show do Wilson Simoninha com o Max de Castro em homenagem ao pai deles, Wilson Simonal. E eu me lembrei de como sou fã dos três. Continue lendo

E a avenida terminou num abraço…

Depois de três meses em São Paulo, vi de perto a Avenida Paulista pela primeira vez. Já tinha caminhado por ela de dia,   de noite, cheia e vazia, mas só desta vez eu a senti de verdade. Já era madrugada quando atravessei os 2,8 quilômetros   de extensão do lugar mais paulistano dessa terra paulistana na garupa de uma moto. E só assim – sem pressa, nem vidros   ou preguiça – percebi seus sons, suas cores e o vento que chega com a velocidade.

Muita coisa me veio à cabeça. A primeira vez que estive ali, o dia em que voltei pra ficar, o que me trazia até lá naquela  noite. Olhei para as pessoas que caminhavam, paulistanamente solitárias, para os grupos de adolescentes noturnos que se reuniam em uma esquina, para os motoristas entediados no trânsito mínimo suportável para a cidade.

Vi as luzes de todos os tons e tamanhos que enfeitam a noite de quem não dorme na metrópole da insônia. Observei as centenas de prédios como mulheres que tentam chamar a atenção entre milhares, se distinguindo por um desenho mais ousado, uma janela mais exótica, diagonais, curvas e cores. Como não consegui identificar uma única música, ouvi todas. Românticas, roqueiras, agitadas, perturbadoras e enigmáticas. Uma mistura de sensações vindas de mim e confundidas com as da avenida, que seguia incólume pela noite. E ela – a noite – terminou num gostoso abraço…