Sobre ipês, sorrisos e cigarras

ipê brasília

Com as primeiras gotas que caem do céu, lá se vão os ipês. Dourados, brilhosos, róseos, violetas, alvos. Eles colorem as ruas secas e empoeiradas. Iluminam galhos retorcidos, surgem no meio do vazio. Florescem quando quase não há vida no Cerrado.

Tanto temos a aprender com eles, que provocam sorrisos e olhares admirados quando todas as outras árvores sucumbem à falta d’água e esmorecem, expulsando suas folhas em frangalhos.

Eles, os ipês, são o alterego da boa gente que ri alto quando tudo parece entristecer. Não lamentam a falta da chuva, pelo contrário – saltitam pelos canteiros, desfilam nas largas avenidas, deixando beleza pelo caminho que ela irá fazer. Só eles sabem a delícia que é ser cor no meio da fumaça que queima, da terra que domina, onde a regra era a morte. E eles vivem.

Ser ipê, só candango entende, é ser admirado por ser vistoso, um ponto de alegria entre tanto desgosto. É ser fotografado do alto, do lado, de frente, do ângulo reto e da grande angular. É ser compartilhado e curtido, virar pôster e capa de jornal, para depois derramar-se no chão em muitos pedaços, que é para pintar a grama que secou.

É completar o ciclo, doando seu corpo de madeira para terminar como um móvel fino. É passar pela vida cumprindo seu papel de colorir, embelezar, florescer. E sair dela leve, soltando flores pelo vento, abrindo espaço para a chuva que vem lá, rindo alto.

Ser ipê é ser luz onde há cegueira, amor onde há engarrafamento. É a natureza dizendo que sempre vai dar um jeito de surpreender e ecoar sua grandeza e sua delicadeza, ao mesmo tempo. Eu, se um ipê fosse, desfolharia feliz todo mês de setembro, só por ter iluminado por aí algumas vidas, esquinas, fotografias e poesias. Antes que as cigarras cantassem…