Entre cobogós e tesourinhas

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Torre de TV de Brasília – Eixo Monumental (Foto: Adriana Caitano)

Lá do alto da Torre,
te vi pedalando no Parque da Cidade,
depois te encontrei no Beirute
e torci praquilo ser de verdade.

Skate no museu, por do sol na Ermida,
as quebradas de Ceilândia,
hip hop na avenida.
Num rolê em Planaltina e em Taguatinga depois.
Eu boto muita fé em nós dois.

Depois da Bomba no Guará,
te vi caminhando no Eixão,
surfando no Lago Paranoá,
indo ao Conic fazer carão.

Na SQS te vi entre cobogós, lá embaixo no pilotis.
E de baú indo pra Rodô vi a lua gigante naquele céu sem fim.
Será que você estava pensando em mim?

Na última tesourinha,
entrei na quadra errada, pra variar.
Me perdi nas Duzentos e parei numa quadra pra fotografar
Um ipê amarelo que acabou de aflorar.

Penso em você todo dia,
Alguém com quem tenho em comum
O amor por essa Brasília,
Que não se compara a lugar algum.

Sobre ipês, sorrisos e cigarras

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Com as primeiras gotas que caem do céu, lá se vão os ipês. Dourados, brilhosos, róseos, violetas, alvos. Eles colorem as ruas secas e empoeiradas. Iluminam galhos retorcidos, surgem no meio do vazio. Florescem quando quase não há vida no Cerrado.

Tanto temos a aprender com eles, que provocam sorrisos e olhares admirados quando todas as outras árvores sucumbem à falta d’água e esmorecem, expulsando suas folhas em frangalhos.

Eles, os ipês, são o alterego da boa gente que ri alto quando tudo parece entristecer. Não lamentam a falta da chuva, pelo contrário – saltitam pelos canteiros, desfilam nas largas avenidas, deixando beleza pelo caminho que ela irá fazer. Só eles sabem a delícia que é ser cor no meio da fumaça que queima, da terra que domina, onde a regra era a morte. E eles vivem.

Ser ipê, só candango entende, é ser admirado por ser vistoso, um ponto de alegria entre tanto desgosto. É ser fotografado do alto, do lado, de frente, do ângulo reto e da grande angular. É ser compartilhado e curtido, virar pôster e capa de jornal, para depois derramar-se no chão em muitos pedaços, que é para pintar a grama que secou.

É completar o ciclo, doando seu corpo de madeira para terminar como um móvel fino. É passar pela vida cumprindo seu papel de colorir, embelezar, florescer. E sair dela leve, soltando flores pelo vento, abrindo espaço para a chuva que vem lá, rindo alto.

Ser ipê é ser luz onde há cegueira, amor onde há engarrafamento. É a natureza dizendo que sempre vai dar um jeito de surpreender e ecoar sua grandeza e sua delicadeza, ao mesmo tempo. Eu, se um ipê fosse, desfolharia feliz todo mês de setembro, só por ter iluminado por aí algumas vidas, esquinas, fotografias e poesias. Antes que as cigarras cantassem…