A arte de cultivar amigos

regarEu admiro pessoas que guardam amigos. E cultivam um a um como árvores frutíferas que morrem se não regadas. E sabem a data de aniversário do amigo de cor, o dia que começa a TPM da amiga, quando terminou o namoro, pra onde viajou nas férias.

Manter um amigo por perto requer tempo e dedicação. Mandar mensagem só no aniversário não vale. Curtir foto do Facebook de vez em quando também não. Essa gente que guarda amigos sabe aparecer na hora certa, ligar no dia que o outro precisa, chamar pra um jantar no meio da semana ou mandar uma mensagem no meio do expediente. É uma verdadeira arte.

É preciso desprender-se de si mesmo para ser um bom amigo assim. Em troca, receba convites para jantares intimistas, viagens especiais, ser madrinha de casamento, ser padrinho do filho. E tenha um álbum de fotos repleto de momentos divertidos em grupo.

Eu não sou dessas. E não me orgulho. Meu jeito de guardar amigos é só no lado esquerdo do peito bem “debaixo de sete chaaaves”, como diria o Milton. Só que eles ficam trancadinhos, sem saber que estão ali e lá permanecem mesmo se forem embora. Não rego, não alimento, não coloco combustível. Minhas amizades apenas são. Anos mais tarde, quando nos reencontrarmos, garanto que manterei meu carinho e minha admiração. Mas, até lá, não me lembro de perguntar como vai a vida, se mudou de emprego, casou ou separou. Isso é feio, eu sei. Mas é o que faço.

Eu, que fui uma menina sozinha, que passava os recreios no banheiro e desejava tanto ter uma amiguinha por perto, não aprendi a cultivar amigos. Se antes não era hábil para conversas agradáveis, hoje faço amizades com a mesma facilidade que as abandono. Tenho o péssimo hábito de deixar as pessoas irem embora junto com os lugares e os momentos de que fizeram parte na minha vida.

É preciso desprender-se muito dos outros para ser alguém assim. Passei anos reclamando que não tinha amigos, agora concluo que eles é que não me têm. Não me doo, não me entrego, não tiro fotos divertidas no parque nem pergunto quando começa a TPM. Não sou chamada para ser madrinha, não participo dos jantares intimistas. Sou aquela amiga que passa, que encontra sem querer, que sempre está trabalhando demais e não tem tempo para conversar.

E aí me lembro da menina que, aos 11 anos, sentava-se num canto do pátio escolar, observando como os outros se divertiam, ou corria para o banheiro, querendo que o recreio passasse logo. A impressão que tenho é que eu é que sempre escolhi ficar ali, convenientemente sozinha. Talvez num gesto contraditório e quase inconsciente de alimentar o medo que mais me assombra a existência: o de ficar sozinha para sempre. A sorte é que eu ainda tenho por perto gente que sabe regar uma amizade e não deixa que aquele temor infantil se torne real…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s