Eu já pensei em me matar – hoje só penso em viver

pensativoO título, que é verdadeiro, é de propósito. A intenção era que você lesse mesmo, porque é importante. Desde que comecei a ver a vida com outros olhos, tenho falado muito de alegria, de mudar o mundo, de realizar sonhos (e vou continuar). Mas hoje quero voltar a um assunto sobre o qual eu falei durante muito tempo: a tristeza. Basta ver o arquivo deste blog. Ele começou quase que por causa disso. Eu relatava muitos momentos de depressão que tive, mas nunca disse publicamente que já pensei em morrer, em diversos momentos. Calma, este texto não é pra dizer que voltei a ser assim. Mas poderá ser forte. Ele está surgindo quase do meu estômago e pedindo para ser escrito agora, durante a madrugada, do tamanho que vier, para tentar ajudar algumas pessoas que acabo de conhecer. Me julguem o quanto quiserem, mas acho que minha história poderá ser útil para ao menos uma pessoa… Já terá valido a pena.

Eu estava aqui planejando uma aula que darei sobre suicídio neste fim de semana. E pesquisando na internet cheguei a dois lados curiosos da moeda. De um, alguém que resolveu unir pessoas que pensam em se matar em uma comunidade, um blog, um bate-papo sob o slogan “suicídio, tristeza e depressão tratados com seriedade”. O nome assusta: “Quero Morrer”. Mas a pessoa foi muito esperta em escolher esse título justamente porque atrai o público certo. Fui ler do que se tratava e gostei.

O cara ou a cara (que não se identifica) fala sobre o problema de forma dura, mas mostrando claramente aos possíveis suicidas a realidade desse sentimento, as causas e os efeitos. Ele cita a ciência, com depoimentos e alertas de médicos e especialistas renomados, e fala de religião, com depoimentos, por exemplo, de pessoas que se mataram e relataram, pela psicografia, o mundo cruel e doloroso que encontraram após a morte (mas que depois se recuperaram e ficaram bem).

O outro lado, sim, me entristeceu. Dezenas de grupos no Facebook destinados a compartilhar pensamentos suicidas – e estimulá-los. Meninas e meninos com perfis e vidas aparentemente comuns e felizes participando de grupos sombrios e mórbidos. E outros que levam essa morbidez para suas roupas, músicas, expressões faciais, fotografias de auto-mutilação.

Uma coisa em comum: todos contam o quanto são tristes, o quanto choram escondidos, o quanto se sentem esquecidos, abandonados, preteridos. Eles relatam a dor da indiferença, da traição, da sensação da não-existência. E aplaudem quando um diz que está perto de “criar coragem” para fazer o derradeiro corte. E logo abaixo uma multidão de pessoas insensíveis e igualmente sofridas despejam-lhes críticas, piadas, ofensas.

Não quero defender os suicidas, não acho que alguém, nem mesmo eles, seja simples e puramente vítima da sociedade, da vida ou de quem quer que seja. Mas é que fui um deles. Devo dizer que não só nesta vida, quando pensei em dizer adeus mais cedo na adolescência e até na vida adulta. Eu já soube, vi e senti que fiz isso de verdade em outras existências. Bem, sou espírita e digo com certeza mais que absoluta que só estou hoje aqui, escrevendo este texto e vivendo uma vida de verdade, por isso.

O Espiritismo me provou tantas e tantas vezes que morrer não é o fim. E que a pessoa que pensa assim e resolve dar cabo da própria vida encontra muito mais dor e sofrimento minutos depois. E se frustra muito. Vi que fugir do meu drama pessoal não ia adiantar nada, pelo contrário, eu ia carregar mais problemas por mais tempo. E essa certeza muitas vezes me irritou também, confesso, principalmente quando me imaginei acelerando o carro de olhos fechados para ver o que acontecia. Ah se tudo se resolvesse assim, num piscar de olhos… Mas não é assim.

Sei que eles ainda deixam lágrimas, culpa e dor entre os seus. Mas também não gosto que chamem os suicidas de egoístas sem saber o que houve nem que resumam tudo ao “pecado” e à afronta a Deus. Isso sim é covardia. É como aqueles meninos dizem no Facebook: “alguém está dentro de mim para saber o que sinto?”. E é por isso que quis escrever este texto: pra dizer que sim, eu sei o que vocês sentem. Quando tudo parece sombrio, perdido, sem chão, sem luz, sem túnel, sem nada, não pensamos em outra solução senão essa.

Mas eu também quero lhes dizer sem hipocrisia, sem querer doutrinar ninguém: sim, existe outra solução. E nada, nada justifica a decisão de brincar de Deus, ainda que não acredite nele. Usar o discurso de “a vida é minha” também não vale. Porque ele pode ser usado contra também: se a vida é sua, você tem poder para fazê-la melhorar e caminhar como você gostaria.

Olha, o mundo todo pode dizer que tudo está perdido, que só há tristeza e dor, que o país está à beira de um colapso, que não há esperança. Mas sabe quem é o grande responsável por mudar tudo isso? Vocês! Apesar de ninguém ter lhes dito, vocês são capazes de verdade de mudar a realidade que está à volta. Nasceram para isso! Nós nascemos para isso. Ou você acha mesmo que sua existência seja totalmente fruto do acaso, que você é só uma poeirinha insignificante do tal sistema malvado que quer nos engolir? Quem te disse isso estava mentindo. Era alguém medroso e, esse sim, egoísta, que não brilha nem quer ver os outros brilhando.

Sabe quando minhas ideias começaram a mudar? Quando descobri o quanto poderia ajudar as pessoas com o que tenho aqui dentro. Eu sou jornalista e achava que era lá nas redações que faria isso. Mas aí descobri que eu acabava sendo responsável por propagar ideias negativas e generalistas sobre violência, pobreza e corrupção que não ajudam em nada. Muita coisa desnecessária é explorada até o fim, enquanto muita coisa que precisa ser dita não é. Suicídio, por exemplo, é um assunto proibido de ser noticiado em toda a imprensa brasileira, sabia? A não ser quando se trata de alguém famoso.

Mas o debate para por aí. Não se discutem políticas públicas, formas de auxílio e, principalmente, o motivo dessas mortes porque acham que, falando disso, estarão estimulando novos casos. Pode até ser. Mas será que não há outro jeito? O CVV (Como Vai Você – http://www.cvv.org.br/) é um órgão incrível que consegue salvar tantas pessoas que ligam para lá (no 141) na hora do desespero pedindo ajuda e pouca gente conhece ou divulga. As estatísticas estão escondidas, como se não existissem.

Mas eu sei que vocês existem. Estão sofrendo por um amor que se foi ou que nunca existiu. E, sem querer dar bronca, por favor, devo lhes dizer: dane-se! Não é porque alguém não te quis que você precisa deixar de confiar no resto da humanidade. Eu sei que você vai negar, mas nem todas as pessoas são falsas, traidoras, abandonadoras e mentirosas. O bem existe, as pessoas que amam de verdade existem, as pessoas confiáveis existem. Elas só são mais discretas. Martin Luther King um dia disse: “O que me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons”. Por isso não vou me calar.

Também não vou fazer aquilo de “olha a vida linda que você tem, seu mal agradecido”, que sei que irrita. Apenas peço que você comece a ver o que pode fazer para melhorar a situação a sua volta. Sua mãe não te ama? Ensine você a ela o que é amar. Uma pessoa te traiu? Deixe-a ir e vá buscar qualidades em você para que outra pessoa e, principalmente, você mesmo, possa te admirar e amar. Errou, fez besteira? Peça desculpas e siga em frente, recomece, mesmo que não te perdoem. A sua parte você fez. Se arrependa e aprenda com o erro. É para isso que ele serve.

Você é capaz de fazer a diferença. Está tudo aí, dentro de você. Eu juro! E – ainda mais ao ver esses depoimentos de vocês – eu me encho de vontade de viver, de deixar de lado meus próprios dramas, que na verdade são tão pequenos quando olho direito, e de lutar sempre para que pessoas como vocês, como eu fui um dia, voltem a acreditar nos sonhos e os realizem, sem olhar para trás, sem ouvir as queixas, as críticas alheias e as suas próprias cobranças. É possível, acredite!

E ver que são tão jovens, tão lindos, tão sorridentes, me trouxe outro pensamento. Um texto que vi nesse grupo diz que “suicidas carregam sempre um belo sorriso”. Você aí, que não tem pensamentos suicidas e acha tudo uma bobeira, já parou para observar o olhar de seu filho, seu amigo, seu colega, seu vizinho? Você sabe mesmo o que se passa no coração e nos pensamentos dele? Não é só nas drogas que eles podem buscar a fuga. Tome cuidado porque esses meninos podem ter razão. Um sorriso amarelo não conta tudo sobre a – falta de – alegria de alguém. Antes ainda, pode ser um sintoma escancarado de falta de amor, um pedido de socorro.

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7 pensamentos sobre “Eu já pensei em me matar – hoje só penso em viver

  1. Penso que não tenho mais força e nem vontade de mudar as coisas apesar de saber que é possível quero apenas deixar essa vida, e já tentei tantas vezes, não consegui ainda e isso me revolta ainda mais. Penso ainda que o que fiz tornou ainda mais difícil a minha vida e Deus é muito cruel por me manter aqui mesmo conhecendo minha dor, minha incapacidade de superar e de seguir em frente e a cada dia penso quando será o último e numa forma de fazer com que seja o último.

    • Caro Cleuber, espero que você encontre dentro de você esse motivo, que aí ele nunca mais vai embora… Te garanto que, por mais difícil que a vida seja, nós a pintamos muito pior do que ela realmente é. Permita-se ver o que ela tem a te oferecer e você com certeza vai se surpreender. Torço pela sua felicidade! Abraço, Adriana

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