Às favas com os sinais!

Nos conhecemos em uma troca de olhares despretensiosa. Ao durar um pouco mais, ela passou a ser intrigante. Aí a noite passou e nada. Eu o reencontrei várias vezes e comecei a ficar sem graça com os olhares fixos de longe e tímidos de perto.

Como boba que sou, passei a tê-lo nos meus sonhos. Fiz de tudo para descobrir o nome, o que fazia da vida, tudo. Um dia cheguei perto como quem não quer nada, fingindo fazer outra coisa enquanto ouvia uma conversa dele com alguém. Nessa eu descobri o nome.

Depois de um tempo, mesmo sem termos trocado uma palavra sequer, já o considerava íntimo. Até nos cumprimentávamos com aquela levantada de sobrancelha e um sorrisinho de canto de boca.

Um dia ele sumiu e um tempão depois nos esbarramos de novo. Dessa vez, rolou aquele papo “e aí, você sumiu, nunca mais te vi”. Coisa de velhos conhecidos.

Desse dia em diante tudo mudou. Nos adicionamos no Orkut (sim, essa história se passa no milênio passado), no MSN, dançávamos juntos. E de repente as coisas pareciam dar passos largos para um final feliz. As danças eram mais próximas e provocantes, os papos mais frequentes.

É, meus caros, ele deu sinais, muitos sinais. Se eu passasse por onde ele estava, ainda que dançando com outra garota, ele parava, largava a moça de lado e vinha me abraçar. Se eu estava distraída, assistindo a um show, ele passava o braço pela minha cintura e ficava ali, cantando junto, bem pertinho. Parecia não perceber que meu coração quase rasgava meu peito e eu ficava completamente sem fala nessas horas.

Isso aconteceu algumas muitas vezes. E em todas eu chegava a ensaiar uma conversa franca pra entender, afinal, o que ele pretendia com aquilo. As pessoas começaram a perceber, vinham me perguntar se estávamos juntos. E eu cada vez entendia menos.

Quis tirar a prova, joguei verdes e mais verdes. Cometi o absurdo de chamá-lo pra ir ao cinema quando ganhei um par de ingressos, passando por cima de todo o meu orgulho e feminismo. Ele disse que topava, claro, mas depois a gente marcaria. Aham.

A gota d’água, óbvio, tinha que chegar. E foi quando ele me chamou pra dançar, chegou o nariz perto do meu, suspirou e encerrou a dança ali mesmo, me deixando com cara de pata choca bem no meio do salão. Grrrrr. Vê se pode?? Não ia deixar barato. Reuni toda a coragem que eu nunca tive e fui atrás dele.

Quando o encontrei, eu, toda fofa, perguntei o que estava acontecendo. É que tá parecendo uma coisa que não sei se é, sabe? O indivíduo deu um sorriso de menino danado quando apronta e faz cara de santo pra não apanhar e soltou a seguinte pérola: “Uai, Dri, mas você é minha amiga. Nunca pensei em nada. E, de qualquer forma, eu acabei de sair de um relacionamento, estou precisando ficar sozinho um pouco, não ia querer te magoar, você é muito legal”.

– O quê??? Podia ser mais criativo nessa respostinha, hein? Não queria me magoar? Eu te pedi em namoro ou casamento, por acaso, filhinho? Acho que não. E legal é a avó. Seu %$#@*&!!!! Vai pra $#@%&+!!! Tomara que morra seco!

Mas é claro que eu, uma mocinha comportada e fofa, não ia dizer tudo isso pro coitado, apesar dele merecer. Na hora, morta de vergonha, antes de procurar um buraco pra enfiar minha cabeça, sorri simpática, balbuciei qualquer coisa e corri dali.

Fiquei puta da vida por uns dias e tomei coragem pra dar uma bronca bem dada pelo MSN um tempo depois, recorrendo até a Antoine de Saint-Exupéry com a fala clichê do Pequeno Príncipe (aquela do tu te tornas eternamente responsável…). Ele pediu desculpas dizendo que não teve a intenção de fazer parecer o que não era, jurava, e que ia prestar mais atenção nessas coisas da próxima vez. Aham.

Só pra completar a história, que sempre pode piorar, ele apareceu UM MÊS DEPOIS com uma namorada linda, loira e estudante de Medicina e teve a cara de pau de me apresentar. Eu, a idiota, ele, o babaca, numa situação que, sério, não precisava existir.

Pra não dizer que as coisas terminaram totalmente ruins, um bom tempo depois eu já era uma moça formada e meio que independente, tinha feito um filme, conhecia todo mundo que ele queria conhecer. E a criatura, ainda namorando, ficava puxando assunto comigo todo fofo, com cara de admiração. Só que aí não adiantava mais. Pra mim ele não passava de um menino legalzinho, bobinho e sem graça.

Não é despeito, não, é a melhor sensação do mundo.

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3 pensamentos sobre “Às favas com os sinais!

  1. Sério. Cara chato. Cara esquisito. Só uma palavra pra ele: credo! Ótimo texto, Dri. Valeu por compartilhar tua história.
    Pati Spier

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