Ser levada por inteiro

Natália Klein, redatora, escritora, psicótica e a Nikita do Macho Man

Peço desculpas a vocês (poucos) que gostam de ler este blog. Ando escrevendo tantas coisas obrigatórias ultimamente que me faltam tempo, paciência e inspiração para textos legais sobre a vida, que eu realmente gosto de fazer.

Mas, para não deixar vocês na mão, coloco aqui o texto de uma escritora que conheci há pouquíssimo tempo e já admiro muito – Natália Klein. Eu já a assistia na TV no papel da gótica Nikita da série Macho Man. Mas uma amiga comentou que ela era blogueira também e que seu blog tinha virado um programa no Multishow, o Adorável Psicose. Aí eu descobri que ela fala tudo que eu gostaria de falar, mas com muito mais humor e talento.

O primeiro texto dela que escolhi é o “A afetividade torta”. Deliciem-se. Eu concordo em número e grau com ela:

A afetividade torta, por Natália Klein

“Acho que o maior problema dos relacionamentos contemporâneos é da ordem gastronômica. Da forma como eu vejo – e talvez esteja influenciada pela fome da madrugada – as pessoas são como grandes tortas de sabores variados. Algumas a gente bate o olho e já sabe que vai gostar, às vezes só pelo cheiro. Outras vezes, a gente segue a intuição e só depois descobre que é alérgico a nozes, ou pior, que a torta em questão curte sertanejo universitário.

Mas, ao contrário do que você possa estar pensando, o problema dos relacionamentos contemporâneos não reside no fato de que somos tortas gigantes. Tortas são bonitas e gostosas, na grande maioria das vezes – exceto nas festas de aniversário em escritórios no centro da cidade. A tristeza da coisa está na constatação de que estamos vivendo uma espécie de comidaaquilorização da afetividade. Isso significa que, devido a alta oferta de tortas no mercado, ninguém consegue se focar em apenas um sabor.

O que temos hoje é uma porção de tortas sendo vorazmente garfadas e deixadas de lado, aos pedaços, disformes, tristes. Todo mundo quer um pedacinho de torta, uma fatiazinha fina do tipo “estou-de-dieta-não-quero-muito”. Tem sempre alguém querendo dar uma mordiscada, uma lambidinha, uma passadinha de dedo marota. O que ninguém quer – ou tem coragem de fazer – é arriscar e levar a torta inteira para casa.

E essa é a grande lástima da nossa geração. Estamos acostumados a tirar lasquinhas de várias sobremesas e levar à balança do restaurante para pesar. É a insustentável leveza da torta mousse de chocolate e do cheesecake de framboesa. Estamos acostumados a ter muitas, muitas opções de comida. E de pessoas. Conheço gente que tem mais de 1.000 amigos no Facebook. Como se alguém fosse fisicamente capaz de ter mil amigos.

E qual é o resultado disso? Tortas garfadas e destroçadas, sem lugar cativo na geladeira de ninguém, vagando por aí, pelas noitadas, pelas festas, tristes, tortas. E, pouco a pouco, elas vão perdendo a doçura. Vão se tornando descrentes, azedas, estragadas pelo ataque dos garfos despretensiosos.

Somos tortas. Claro que somos comidas. Mas o que eu queria mesmo era experimentar a sensação de ser a preferida de alguém. Aquela que é levada dentro do pacote – o pacote completo, com todos os defeitos e qualidades, com todas as garfadas sofridas, com tudo aquilo que faz de mim a torta gigante que eu sou. Estou farta de me pedirem pedacinhos. Quero ser levada por inteiro”.

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