A dor de não saber

Tenho uma profunda e dolorida mania de sofrer por não saber tudo. Quando leio uma crítica sobre o Woody Allen e percebo que não entendo as referências porque só vi dois filmes dele, me irrito. Quando leio uma reportagem citando Maquiavel e lembro que não li “O Príncipe” ou “Assim Falou Zaratustra”, de Nietzsche, me indigno. Se ouço uma música dos Novos Baianos e descubro que não sei quase nada da história deles, me revolto. Se estou numa conversa em que comentam as séries americanas ou demonstram dominar a língua inglesa, me entristeço por não fazer parte disso. Não importa o quanto eu tente ler livros, ouvir músicas, ver filmes – sempre haverá muitas outras coisas que eu simplesmente desconheço. E isso me mata de raiva.

Tudo bem. Se Sócrates, o grande filósofo grego, sábio e à frente de seu tempo, ousou dizer “só sei que nada sei”, eu, uma mortal brasiliense que não entende nada de filosofia, tenho direito de também não saber, não é? Mas não adianta. Quero sempre entender mais e mais e mais. E fico tão ansiosa para saber tudo que acabo não dando conta de estudar nada direito. Nem queira saber quantos livros estão amontoados na minha cabeceira porque não consegui lê-los até o fim nos últimos meses. E quantas abas abro no navegador da internet para pesquisar sobre milhares de coisas ao mesmo tempo. E quantas músicas e quantos filmes estão na minha lista “não esquecer”. (Adriana, seu problema não é não saber, é ser enrolada e preguiçosa)

Devo aceitar: tenho vontade de entender, pesquisar, mas nunca vou chegar ao ponto de saber tudo. Há pessoas que entendem de cinema, mas não sabem nada de música brasileira. Há os que dominam a filosofia, mas não assistem a bons filmes. Existem entendidos de música que não sabem de política. Há até quem seja fluente em cinco línguas, mas cometa erros básicos de português. E sabichões em (quase) tudo que só se esqueceram de aprender a tratar bem as pessoas.

Fazer o quê? Não dá para ser perfeito mesmo. O sofrimento de desconhecer é dolorido, sim. Mas talvez seja exatamente ele que nos incentive a nunca desistir de tentar. Tem mais: a sabedoria traz consigo muita responsabilidade. E esse peso não é tão fácil de carregar. Então, a primeira coisa a se saber é o quê exatamente queremos saber, saber escolher. Porque a biografia da Lady Gaga ou do Justin Bieber, sério, não me interessa nem um pouco. E, cá para nós, tem coisa que é melhor não saber, né?

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Nada Sei – Kid Abelha

Nada sei dessa vida
Vivo sem saber
Nunca soube, nada saberei
Sigo sem saber

Que lugar me pertence
Que eu possa abandonar
Que lugar me contém
Que possa me parar

Sou errada, sou errante
Sempre na estrada
Sempre distante
Vou errando
Enquanto tempo me deixar

Nada sei desse mar
Nado sem saber
De seus peixes, suas perdas
De seu não respirar

Nesse mar, os segundos
Insistem em naufragar
Esse mar me seduz
Mas é só pra me afogar

Sou errada, sou errante
Sempre na estrada
Sempre distante
Vou errando
Enquanto o tempo me deixar
/
Queremos Saber – Cássia Eller

Queremos saber,
O que vão fazer
Com as novas invenções
Queremos notícia mais séria
Sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
Na emancipação do homem
Das grandes populações
Homens pobres das cidades
Das estepes dos sertões
Queremos saber,
Quando vamos ter
Raio laser mais barato
Queremos, de fato, um relato
Retrato mais sério do mistério da luz
Luz do disco voador
Pra iluminação do homem
Tão carente, sofredor
Tão perdido na distância
Da morada do senhor
Queremos saber,
Queremos viver
Confiantes no futuro
Por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão
A ilusão do poder
Pois se foi permitido ao homem
Tantas coisas conhecer
É melhor que todos saibam
O que pode acontecer
Queremos saber, queremos saber
Queremos saber, todos queremos saber

/

O Mundo é Bão, Sebastião – Nando Reis

Por que o sol saiu
Por que seu dente caiu
Por que essa flor se abriu
Por que iremos viajar no verão
Por que aqui o mundo não será cão
Quando o Goodzila atacar
Quando essa febre baixar
Quando o mamute voltar
Descongelado a caminhar na Sibéria
Quando invento, o mundo é feito de idéias
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é bão, Sebastião
O mundo é teu, Sebastião
Como escrever certo o seu nome
Como comer se der fome
Como sonhar pra quem dorme
E deixa o cansaço acalmar lá em casa
Como soltar o mundo inteiro com asas
Tiranossauro Rex tião
Dentro dos seus olhos virão
Monstros imaginários ou não
Por sorte somos todos os infernais
E agora eu vivo em paz

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4 pensamentos sobre “A dor de não saber

  1. O problema não é não saber e sim fingir, neglegenciar informações que batam a sua porta e isso tenho certeza que nãofazemos…
    Sem melancolia, por favor, os amigos, que realmente são amigos sempre estarão aqui pro que for preciso, em todos os sentidos, inclusive pra compartilhar a obra como de Fela Kuti (que por sinal não foi citado, ou seja, não o pesquisou, te mando por email… rs!).
    Otimo dia, bons ‘estudos’ 🙂

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