Frigideira na cabeça

Alguém já viu o filme “Terapia do Amor”, aquele em que a terapeuta descobre que uma paciente está namorando seu filho? Não estou nem aí para a história romântica em questão, o que me marcou mesmo foi quando o rapaz disse lembrar-se da avó dele batendo com uma frigideira na cabeça toda vez que ele fazia algo errado. Minha identificação com ele foi imediata.

Não tenho nenhuma avó que faria essa bobeira, meu problema sou eu. Todas as vezes que faço uma burrada, das menores às mais catastróficas, imagino uma cena totalmente absurda e fora de propósito que chocaria muita gente [tirem as crianças da sala!]: no momento em que percebo o erro, imediatamente pego uma arma que está em cima de uma mesa e atiro na minha cabeça. (pã!)

Calma! Não tenho a menor vontade de me matar. Sou espírita e sei exatamente as consequências de um ato desses, Deus me livre. Mas não consigo evitar esse suicídio imaginário que insiste em aparecer sempre que troco os pés pelas mãos. Às vezes, quando o “crime” é menorzinho, me imagino só batendo em minha cabeça com aqueles martelos de brinquedo do Chapolin Colorado – mas o revólver é bem mais frequente.

O fato é que, a exemplo daqueles padres de novela que se chicoteiam quando pensam em pecar, eu me maltrato duramente a cada deslize. E olha que os meus nem sempre são gigantescos – nunca matei, roubei, violentei, traí ou enganei ninguém. Geralmente, meus erros têm consequências negativas só pra mim. Já sofro horrores com isso e, quando atingem alguém, aí é que quero a morte mesmo (no sentido figurado, calma).

Eu sei, é tudo um exagero meu. Sempre foi assim. Não me esqueço de quando eu tinha 17 anos, estava no final do Ensino Médio e decidi passar cola para uma amiga. A coordenação da escola descobriu e eu fui parar na sala do diretor. Reconheci o erro na hora e, chorando, mandei uma mensagem com 500 toneladas de drama para o celular do meu pai e do meu irmão: “minha vida acabou!” (juro, foi desse jeito)

Fiquei desesperada com o fato de ter errado, fui embora a pé, sem avisar à minha mãe, e desliguei o celular para ninguém saber onde eu estava. Fiquei escondida por horas numa obra perto de casa. Chorei, chorei horrores! E no fim das contas minha única punição foi fazer a segunda chamada da prova (só porque eu era uma boa aluna, ufa!).

Agora me digam: o que faz uma pessoa saudável, sem problemas, boas notas, uma boa profissão, um bom currículo, um bom trabalho quase se matar porque comete um deslize comum? Também não sei. Orgulho? Vaidade? Mania de perfeição? Burrice? Pode ser tudo isso junto. Reconheço que o maior erro da minha vida é não aceitar que sou humana, imperfeita e, portanto, tenho todo o direito do mundo de errar de vez em quando. Só que, como diria Clarice Lispector, “não sou madura o bastante ainda. Ou nunca serei”.

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2 pensamentos sobre “Frigideira na cabeça

  1. Nesse mesmo momento q to escrevendo passo pelo mesmo problema. Não me aceito, tenho muita raiva de mim mesmo, às vezes até sem cometer erro algum, basta lembrar o q eu já fiz um dia de errado e BOOM! Acabou, explodiu e fico esperando juntar os destroços da mente e continuar andando, esperando a próxima vez q isso irá acontecer. Ciclo vicioso e maldito. Será q um dia isso acaba? Espero q sim.

    • Caro Thiago, acredito que isso acaba sim. Quase oito meses depois de escrever este post, já posso dizer que muita coisa mudou. Comecei a observar as outras pessoas e vi que todo mundo, sem exceção, comete deslizes – até piores que os meus. Por que eu seria especial? Erro mesmo, mas sem querer errar. E quando percebo. reconheço o que fiz e tento não fazer de novo. É o jeito. Nem marteladas, frigideiras ou tiros na cabeça vão resolver a situação de uma forma melhor. Vamos tentar nos aceitar como somos e ter consciência de que só tem um jeito de sair desse ciclo vicioso: querendo de verdade melhorar sem chorar pelo leite derramado. Bola pra frente! Certeza que vamos conseguir.
      Grande abraço, Dri Caitano

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