Juventude inquieta

Sempre fui inquieta, não aguento ficar muito tempo fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar. Desde aulas de dança e esportes a estágios. Começava empolgada e, se perdia a graça, queria trocar. E sempre quis muitas coisas, todas ao mesmo tempo. Teria que ter várias vidas em uma pra realizar tudo. Pra mim, o que vale é eu me sentir bem com o que faço. Não importa se ganharia mais dinheiro e seria mais famosa fazendo outra coisa. Se não me dá prazer, não interessa. Tinha medo de não conseguir concluir uma faculdade por causa disso. Mas consegui. E hoje me vejo questionando se quero seguir na mesma profissão para o resto da vida.

No último ano comecei a observar alguns amigos e colegas da mesma idade. Apesar de inteligentes, viajados, brilhantes e com um emprego dos sonhos já no início da carreira, eles não estão felizes. Querem mais. Não mais dinheiro ou fama. Mais realização pessoal. E por isso vi tantos mudando de trabalho, de profissão, de cidade e até de país em menos de um ano após formados. Não aguentam esperar uma promoção ou alguém lhes dar a mão e puxar para cima. Respiram fundo e vão, sem medo. Se não der certo, tudo bem. São jovens mesmo, têm muito tempo pela frente.

Juntei as peças e vi que eu não estava sozinha no mundo. Não é só meu signo, minha personalidade meio bipolar ou a tal influência da mídia que me fazem querer mudar o tempo todo, ser desafiada, ir atrás de algo que me deixe feliz de verdade. Descobri que eu faço parte da famosa Geração Y.

Sempre via esse termo nas capas de revistas sobre mercado de trabalho, mas nunca fui atrás para saber do que se tratava. Hoje, pensando em todas essas características comuns entre meus contemporâneos, fui pesquisar e tudo ficou claro (leia a reportagem que me ajudou aqui). Nós, cidadãos do mundo desde os anos 80, temos uma personalidade quase igual, como robôs fabricados em série.

Aos 20 e poucos anos, 30 no máximo, temos blog, Twitter, Facebook, estamos acostumados ao mundo digital, às informações rápidas, a saber tudo pelo Google, ao celular multifunção, à liberdade de expressão, à inflação controlada, ao Real – apesar de já termos recebido mesada em cruzeiros -, ao voto, ao cursinho de inglês. Crescemos em um mundo bem melhor do que nossos pais conheceram, não precisamos apanhar nem pintar a cara pra libertar o país (a não ser que você tenha ido pedir o impeachment do Collor nas ruas aos 12 anos).

Muitos de nós fazemos parte da classe média que se formou nos anos 90. Nossos pais saíram da roça, das cidades miúdas, trabalharam ainda pequenos, venderam frutas na feira, limparam a casa dos outros, mal estudaram. O sonho deles era ter emprego fixo, casa, filhos, aposentadoria. Aos poucos, conseguiram juntar tijolinhos pra construir a vida que nós encontramos pronta ao nascer. Se mataram de trabalhar pra nos dar um bem que ninguém poderia nos tirar e que eles não tiveram: o estudo. E com ele nós subimos um degrau, escolhemos uma profissão, estamos nos virando. Mas nada de emprego eterno e aposentadoria.

Ainda com o mundo a nosso favor, queremos mais. Mudar o mundo mesmo nem é mais nosso grande sonho. Queremos mudar a vida, a nossa própria vida e a de quem está por perto. E nada mais importa. Isso é bom, de certa forma. Afinal, mudando o tempo todo, ajudamos a mudar o mundo junto. Só tenho medo de que, ao chegarmos ao fim da vida, percebamos que, mudando tanto em busca de desafios e frio na barriga, tenhamos terminado sem nada de concreto nas mãos, como nossos pais tanto sonharam.

*Atualização: Leiam também o comentário da Júlia, abaixo, que complementa muito bem a ideia.

*Ataualização 2: Assista aqui ao vídeo We All Want to Be Young, que conta a histórias das gerações de jovens, até chegar à Y.
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A música que, pra mim, melhor representa tudo isso é, na verdade, De 1976, pelo compositor Belchior. A melhor gravação dela é na voz da Elis Regina, que segue:

Velha Roupa Colorida – Belchior, na voz de Elis Regina

Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era novo, jovem
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer

Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home”
E meteu o pé na estrada, “Like a Rolling Stone…”
Nunca mais eu convidei minha menina
Para correr no meu carro…(loucura, chiclete e som)
Nunca mais você saiu a rua em grupo reunido
O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz

No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais
No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais

Como Poe, poeta louco americano,
Eu pergunto ao passarinho: “Black bird, o que se faz?”
Haven never haven never haven
Black bird me responde
Tudo já ficou atras
Haven never haven never haven
Assum-preto me responde
O passado nunca mais

Você não sente não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
O que há algum tempo era jovem novo,
Hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer

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5 pensamentos sobre “Juventude inquieta

  1. Ouvi o Max Geringher dizer numa palestra que a nossa geração trata a vida como um video game: qlq problema, a gente acha q dá pra apertar o botão de restart e começar de novo. Bem, não dá. A gente pode e deve mudar, mas essa ansiedade de querer tudo pra ontem, de não saber ficar parado para aguardar algumas mudanças, pode acabar nos destruindo.

    Buscar a própria felicidade e a das pessoas à nossa volta é importante, mas é uma faca de dois gumes. O risco é nos tornarmos rolos compressores, mais preocupados com projetos pessoais imediatistas do que com o bem-estar coletivo. E quando perdemos nosso senso de coletividade, acontece o caos que vemos hoje nas grandes cidades: violência, agressividade, falta de respeito, poluição, desastres, impunidade. Essas são desgraças que precisamos combater desde e para sempre.

    Nós, da Geração Y, precisamos respirar fundo e botar na cabeça que algumas mudanças demoram a acontecer, que a vida leva um tempo para maturar as coisas. Blogs, Twitter, Facebook, MP3, tudo isso é bobagem. Vida é vida e ponto final. A maneira de encará-la pode determinar nosso sucesso ou nosso fracasso.

  2. Dri,

    Não sei é bom ou ruim, mas estou bem no meio dessa tal geração aí. Inquieto onde estou e interessado demais por onde não estou. É bem o que diz Belchior, numa leve adaptação por mim.

    Eu não posso deixar de dizer, minha amiga
    que uma nova mudança em breve vai acontecer
    Vou meter o pé na estrada,
    e o passado será uma roupa que não me servirá mais

    Tenho planos malucos pela frente. Acho que, no mínimo, você vai me apoiar.

  3. Ontem fiquei meia hora na frente do computador pensando em escrever algo sobre isso. Devia ter lido seu blog ontem, disse tudo que eu queria. 🙂

    O angustiante dessa tal geração é ter sempre a impressão de que onde estamos não é nosso lugar. Por um lado é bom, porue ficamos sempre “à procura da felicidade”, mas não saber quando vamos encontrar dá um aperto no peito.

    Como disse o Galton, tenho planos malucos pela frente… e eles sempre serão seguidos de outros planos malucos, tenho certeza.

    beijo

  4. Não acho que os nossos pais tenham levado uma vida tão sofrida assim, não. E acho que os nossos filhos vão ter mais conforto e mais preocupações do que a gente. Antes era fácil saber o que queria da vida porque as opções eram menos numerosas. Lógico que, depois de ter como escolher, sempre vamos preferir ter opções, mas isso implica em mais responsabilidade pelos erros e acertos, em mais sangue frio pra arriscar e muita aflição quando não se sabe pra onde ir. Acho que a nossa geração tem, como qualquer outra, um monte de gente que não pensa. E parar pra pensar já é uma evolução e tanto.

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