O sofrimento criador

Sabe o Vinícius de Moraes? Sim, ele foi um gênio. Mas só conseguia escrever tudo de lindo que ele escreveu quando sofria. Precisava se apaixonar todos os dias para ter inspiração. E perder, ser deixado ou deixar de amar para compor uma canção bem sofrida, um soneto bem medido, um poema dolorido.

Ele dizia que “todo grande amor só é bem grande se for triste” e que até para fazer um “samba com beleza” era preciso “um bocado de tristeza”. O coração dele sangrava e, em seguida, as palavras eram escritas com as gotas de sangue que rolavam. Esse era seu combustível, seu segredo. Assim ele se tornou o maior, o poetinha gigante, eterno.

E como ele houve tantos. Desde sempre foi assim. Da música erudita aos poetas do romantismo; dos sambas doídos de Cartola às mais populares músicas sertanejas. O amor sofrido move a poesia, a canção romântica e até o cinema e o teatro, por que não? Só quem sente a dor de um amor – ou da falta dele – consegue expressá-lo com a intensidade que seu sentimento merece.

Muitos sofrem por prazer. Não suportam a felicidade simples. Serem correspondidos por quem amam torna-se cômodo demais, entediante, um vazio criativo. Ou no mínimo uma desconfiança de que algo ruim está por vir. E por isso os grandes gênios da arte costumam ser sozinhos.

Não quero me comparar a nenhum desses gênios. Longe de mim. Mas no fundo sinto que me inspiro, me encho de vontade de organizar palavras soltas em frases desconexas, mas verdadeiras, quando meu coração está ardendo e minha mente parece nublada. É terapêutico. Eu me entristeço, sofro e corro para uma página em branco. Sem pressão nem horário.

E vão saindo parágrafos que podem não fazer o menor sentido para quem lê, mas voltam para mim como se fossem um bálsamo que vai limpando tudo. Até eu me acalmar de vez e conseguir abrir os olhos para ver que o sol continua brilhando lá fora – e também dentro de mim. E o sofrimento, que pode ter começado sem nenhum motivo real, torna-se um desfrute poético bem particular, que nem precisa ser genial, mas é simplesmente confortador.

(Assuntos relacionados no post anterior e no próximo)

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