Histórias cãs e encanecidas* (ou a poesia de caçar cabelos brancos)

De uns tempos pra cá dei pra vasculhar meus cabelos à procura de fios brancos. Como numa expedição capilar, sempre que me deparo com um, paradoxalmente, comemoro. E o arranco sem dó. É como se cada fio desses a menos fossem alguns anos que ganho a mais de vida.

Por enquanto eles ainda são discretos. Escondem-se comportados nas áreas em que só eu e o cabeleireiro podem ver. De vez em quando um mais atrevido quer aparecer pra todo mundo. Pra esses não tem perdão. São excluídos imediatamente, como um soldado que já não cumpre bem seu serviço, não sustenta uma batalha. E nessa matança vou tentando disfarçar a dura realidade: estou envelhecendo.

Como as folhas caem, os frutos apodrecem e as margarinas – até elas, que, para mim, parecem intermináveis – perdem a validade, meu corpo também vai minguando. Ainda bem que não tenho rugas muito expressivas ainda, pelo contrário. As espinhas no meu rosto são horríveis, mas servem de álibi para minha ilusão de ainda ter um pé na adolescência. Ela nem foi grande coisa, mas parecia não ter fim. Agora não. Sinto que a cada dia que passa o tempo voa mais e nem me deixa analisar com calma todos os movimentos da minha pré-maturescência.

Mas, ao mesmo tempo que eles me irritam, tenho uma leve sensação de orgulho cada vez que arranco um desses fios. Como troféus ou coisa assim, eles vão contando histórias, mostrando que eu vivi. Um me diz que eu perdi o primeiro dente aos 5 anos, outro me lembra que o último dente de leite foi embora aos 11. Um terceiro mostra um filme com minha cantoria aos 4 anos, querendo chamar a atenção com a música “dedos mínibus” (era como eu conseguia dizer, ok?). Um fio bem insistente me traz à memória as tantas vezes que chorei sem motivo e um último, ainda mais grosso e difícil de arrancar, parece gritar que, apesar de tudo, eu sempre fui muito feliz.

Do jeito que está, vai chegar o dia em que eu vou olhar no espelho e ver que os fios brancos se espalharam mais rápido do que eu pudesse acompanhar com minha expedição. Só espero não ter perdido mais tempo procurando um fio para arrancar do que ouvindo a história que cada um deles tinha pra me contar.

*Encanecido: Que tem cãs; grisalho; envelhecido.
Cãs: Cabelos brancos.
(Definições segundo o dicionário Michaelis)

Aproveitando o ensejo, segue uma playlist sobre cabelos brancos, envelhecer e colecionar histórias:

Não vou me adaptar (de Arnaldo Antunes) – Nando Reis

Eu não caibo mais
Nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais
A casa de alegria
Os anos se passaram
Enquanto eu dormia

E quem eu queria bem
Me esquecia…
Será que eu falei
O que ninguém ouvia?
Será que eu escutei
O que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar
Me adaptar…
Eu não tenho mais
A cara que eu tinha
No espelho essa cara
Não é minha
Mas é que quando
Eu me toquei
Achei tão estranho
A minha barba estava
Desse tamanho…

Cabelos Brancos (de Herivelto Martins e Marino Pinto) – com Moska e Casuarina

Não falem desta mulher perto de mim
Não falem prá não aumentar minha dor
Já fui moço, já gozei a mocidade
Se me lembro dela me dá saudade
Por ela vivo aos trancos e barrancos
Respeitem ao menos os meus cabelos brancos.
Ninguém viveu a vida que eu vivi
Ninguem sofreu na vida o que eu sofri

As lágrimas sentidas, o meu sorriso franco
Refletem-se hoje em dia nos meus cabelos brancos
E agora em homenagem ao meu fim

Amanhã é 23 – Kid Abelha

As entradas do meu rosto
E os meus cabelos brancos
Aparecem a cada ano

No final de um mês de Agosto…
Há vinte anos você nasceu
Ainda guardo um retrato antigo
Mas agora que você cresceu
Não se parece nada comigo…
Esse seu ar de tristeza
Alimenta a minha dor
Tua pose de princesa
De onde você tirou…
Amanhã! Amanhã!
Amanhã! Amanhã!…
Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo
Queria o seu beijo
Outra vez…

Rugas (de Nelson Cavaquinho) – Caetano Veloso

Se eu for pensar muito na vida
Morro cedo, amor.
Meu peito é forte,
Nele tenho acumulado tanta dor.
As rugas fizeram residência no meu rosto
Não choro pra ninguém
Me ver sofrer de desgosto.
Eu que sempre soube
Esconder a minha mágoa.
Nunca ninguém me viu
Com os olhos rasos d’água.
Finjo-me alegre
Pro meu pranto ninguém ver.
Feliz aquele que sabe sofrer.

Eu que não amo você – Engenheiros do Hawai

Eu que não fumo, queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês
.
Senti saudade, vontade de voltar
Fazer a coisa certa
Aqui é o meu lugar
Mas sabe como é difícil encontrar
A palavra certa,
A hora certa de voltar,
A porta aberta,
A hora certa de chegar…
Eu que não fumo, queria um cigarro
Eu que não amo você
Envelheci dez anos ou mais
Nesse último mês.
Eu que não bebo, pedi um conhaque
Pra enfrentar o inverno
Que entra pela porta
Que você deixou aberta ao sair.
O certo é que eu dancei sem querer dançar
E agora já nem sei qual é o meu lugar
Dia e noite sem parar, corro o risco de encontrar
A palavra certa,
A hora certa de voltar,
A porta aberta,
A hora certa de chegar…

Anúncios

2 pensamentos sobre “Histórias cãs e encanecidas* (ou a poesia de caçar cabelos brancos)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s