Carpinejar pode esperar…*

Há mais de uma semana, fiz uma entrevista com o escritor Fabrício Carpinejar para a VEJA.com (leia ela completa aqui e aguarde para ver outro texto a respeito em breve). Eu virei fã há mais de um mês, quando alguém reenviou uma frase poética dele no twitter. Passei a segui-lo e descobri seu incrível potencial em fazer poesia com 140 caracteres. Vasculhei o blog, o site e encontrei vídeos e entrevistas no youtube. Ele é tão engraçado e, digamos, exótico, que virei fã na hora. Quando vi que ele estava pra lançar um livro de crônicas chamado “Mulher Perdigueira”, fiquei curiosa. Consegui um exemplar – que não sai da minha cabeceira. Li uns trechos para a entrevista e ainda não terminei porque fico degustando cada palavra, digerindo aos poucos. É, como diz a Manu Macagnan, uma daquelas leituras que se faz com um lápis do lado para destacar as partes que você quer lembrar… Simplesmente incrível!

Pra vocês verem o quanto ele é fera, resolvi listar aqui alguns desses trechos que sublinhei durante a leitura até pouco menos da metade do livro. Fora do contexto podem até não ter tanta lógica, mas observe bem a escolha das palavras. Começo pela frase que mais gosto. Apreciem sem moderação:

Não me interessa um tempo comigo quando posso dividir a eternidade com alguém

“O amor é uma comissão de inquérito, é abrir, é grampear o telefone, é cheirar as camisas. É também o perdão, não conseguir dormir sem fazer as pazes”

“Macho acredita que seduz somente fora do casamento. Quando se fixa demoradamente numa jovem, quando pisca o olho a uma estranha, quando dá em cima de uma beldade, quando examina a bunda de uma gostosa. Confia que flertar e soltar indiretas são suficientes para garantir seu domínio territorial. Sua tese é parecer disponível, ainda que comprometido. Carrego, portanto, a certeza de que o maior sedutor não é o malandro, não é o esperto, mas o monogâmico. O fiel. O que tem olhos apenas para sua esposa. (…) Nada mais ostensivo e perigoso do que um homem amando sua esposa. (…) Não custa avisar: cuide de sua mulher antes que ela se interesse pela vida de outra esposa”

“No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá que abandonar a filosofia pessimista, a inteligência solteira do botequim e se declarar apaixonado. Terá que ser incoerente, contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a certidão negativa, a proteção bancária, os manifestos de aversão a casamento e filhos. Não dá para ser esperto sempre”

“O bêbado é uma agência de notícias. Não lhe interessa beber, porém ser visto bebendo. Não é didático, é redundante. Avisa que vai beber todas. Em seguida, avisa que está bebendo. A cada copo virado, nos mantém informados de que está bebendo mesmo. No decorrer, vai concluir que está bêbado. Aciona o saquinho de risadas do bolso e não para. Mesmo bêbado, continuará bebendo para reforçar que está bêbado. (…) Os exibicionistas etílicos não passam de carentes”

“É o que me põe apaixonado numa mulher: o pratinho do vaso. O que é sem graça, o que somente protege, mas que é confidente das raízes. O quanto ela é capaz de estar ao seu lado sem que necessite imortalidade. O quanto me torno observador das inutilidades. Falei inutilidades, pois é, não errei a digitação, quem ama conserva as inutilidades

“Não sou de riscar o que aconteceu para parecer mais maduro ou eliminar as contradições e simular coerência. Inclino-me a conviver com as rasuras e insatisfações”

“Esquecemos que o sexo pode ser curto no tempo e intenso na entrega. Já é suficiente meia hora, desde que vivida com a disposição dos detalhes, desde que a respiração seja saboreada e a pálpebra se feche para deixar o lábio enxergar sozinho”

“Duas coisas que o homem não tolera ouvir de uma mulher: insinuações sobre o seu sexo e que dirige mal. O resto é negociável”

“Conviver consigo muito tempo não é saudável. Eu me perdoo com mais facilidade do que desculpo os outros. Ou me vingo nos outros o que não perdoo em mim”.

“Orgulho-me desse humor brasileiro, incomparável. Daquele cara que deu tudo errado e ainda está achando graça. Sofreu enchente, deslizamento, seca, foi corneado e não se entrega. Não fechará o negócio, a cara, a amizade. É o que não tem motivos pra rir e está rindo. Seu riso é perigoso. Seu riso é ofensivo”

Amar não é um vexame. Escândalo mesmo é a indiferença

*Explicação: O título do post ficou assim porque, quando estava organizando este texto, no meio da madrugada, cochilei um tempo. Quando despertei rápido, vi que tinha um post pra salvar. Minha sonolência me impediu de pensar e eu, no piloto automático, simplesmente escrevi “Carpinejar pode esperar”. Só vi isso no dia seguinte. Acho que pode ter sido um recado do meu corpo cansado dizendo “depois você termina isso, vá dormir”, achei poético e resolvi deixar, mesmo que não faça o menor sentido…

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5 pensamentos sobre “Carpinejar pode esperar…*

  1. “No amor, em algum momento, você terá que ser ingênuo e acreditar. Terá que largar uma vida, refazer sua vida. Terá que abandonar a filosofia pessimista, a inteligência solteira do botequim e se declarar apaixonado. Terá que ser incoerente, contradizer fundamentos inegociáveis. Terá que rasgar a certidão negativa, a proteção bancária, os manifestos de aversão a casamento e filhos. Não dá para ser esperto sempre”

    Geniiiaaal!!!

  2. Adorei sua coluna! sou super fã dele e estou lendo perdigueira!muito bom! as palavras do Carpinejar são viciantes! de vez qem qdo passo no blog dele pra me deliciar!É uma leitura encantadora e que acrescenta muito ao espírito! Agora ele tá ficando mais divulgado e eu apóio sempre, recomendo aos amigos os livros!hehe
    Beijoos!

  3. Pingback: “Literatura sem renúncia é terreno baldio” – Carpinejar « Adriana Caitano

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