Ainda que a espera nunca chegue ao fim…

Confesso: estou à espera do amor. Espera mesmo, não procura. Porque procura, para mim, é desespero, agonia, falta de esperança. E eu, definitivamente, espero. Já morri de raiva de todos os homens e disse que não queria mais gostar de nenhum. Mas, quando percebo, já estou olhando para os lados na rua, nas festas, em todo canto, perguntando se “ele” – o amor – pode estar por aí. Demoro mais a dormir e enrolo para levantar porque fico imaginando como ele é, do que gosta, onde está. Às vezes fico roteirizando nosso romance. Já temos uma rotina, sei aonde vamos, o que vamos assistir, que músicas vamos ouvir juntos. Tenho frases prontas para dizer a ele, abraços preparados para recebê-lo, segredos para contar.

Quando tenho problemas ou um dia difícil, procuro no celular o número dele para ligar e pedir colo. Quando sinto dor nas costas, fecho os olhos e o imagino me fazendo uma massagem. Quando como besteira ou fico sem comer, ouço ele me dar bronca, dizendo que tenho que me cuidar. Quando acordo, olho para o lado para vê-lo ali se espreguiçando. Mesmo sem existir de verdade, ele é uma ausência mais presente do que tudo o que existe.
Definitivamente: estou à espera. Ansiosa, pensativa, apaixonada, preocupada. E ficou pior depois que descobri minhas qualidades. Olho algo que gosto no espelho, vejo o lado bom do meu jeitinho e tenho medo de ele não aparecer para descobrir nada disso.
Sinto que, ao contar esse meu segredo, estou me entregando, me desfazendo das convenções, correndo o risco de afastar qualquer candidato a “ele” que poderia por acaso existir. Mas, por mais que eu queira disfarçar e pense em curtir a vida do desapego, não dá. Estou condicionada à espera, contrariando todos os conselhos de amigos, psicólogos, consultores amorosos e mães que dizem “quanto mais se preocupar com isso, menor a chance de encontrar”. Não ligo.
Não tenho mais vergonha de dizer. Sim, sou bobinha, cafona, antiga, careta. Estou à espera mesmo, mas não é de qualquer um. É “dele”. O único que vai entender por que esperei tanto, por que não me entreguei aos outros enquanto esperava. “Ele” vai entender. E não me venham com imitações. Porque, se não for “ele”, prefiro continuar sozinha, com tempo livre para esperar à vontade. Ainda que a espera nunca chegue ao fim…
Para completar meu momento “espera do amor”, segue abaixo uma playlist de músicas escritas por quem, como eu, perguntam onde “ele” está. Começo com a que mais gosto, letra do Chico César e voz de Maria Bethânia. Linda! Depois vou de Frejat, uma sincera declaração de amor à espera. Sigo com uma do Biquíni Cavadão, que marcou minha adolescência, e depois com uma do Dominguinhos, que lembra aquela do xodó, mas é mais bonita. Por fim, a do Paulo Ricardo, que é bem breguinha, mas está no mesmo espírito “esperançoso”. Encerro com Nando Reis, uma poesia cantada que não me canso de ouvir.
Onde estará o meu amor? – Chico César (na voz de Maria Bethânia)


Como esta noite findará
E o sol então rebrilhará
Estou pensando em você
Onde estará o meu amor?
Será que vela como eu?
Será que chama como eu?
Será que pergunta por mim?
Onde estará o meu amor?
Se a voz da noite responder
Onde estou eu, onde está você
Estamos cá dentro de nós
Sós…
Se a voz da noite silenciar
Raio de sol vai me levar
Raio de sol vai lhe trazer
Onde estará o meu amor?

Segredos – Frejat

Eu procuro um amor
Que ainda não encontrei
Diferente de todos que amei

Nos seus olhos quero descobrir
Uma razão para viver
E as feridas dessa vida
Eu quero esquecer

Pode ser que eu a encontre
Numa fila de cinema
Numa esquina
Ou numa mesa de bar

Procuro um amor
Que seja bom pra mim
Vou procurar
Eu vou até o fim

E eu vou tratá-la bem
Pra que ela não tenha medo
Quando começar a conhecer
Os meus segredos…

Eu procuro um amor
Uma razão para viver
E as feridas dessa vida
Eu quero esquecer

Pode ser que eu gagueje
Sem saber o que falar
Mas eu disfarço
E não saio sem ela de lá

Você existe, eu sei – Biquíni Cavadão

Há tanto tempo venho procurando
Venho te chamando
Você existe, eu sei
Em algum lugar do mundo você vive
Vive como eu
Onde eu ainda não fui
Como é o seu rosto?
Qual é o gosto que eu nunca senti?
Qual é o seu telefone?
Qual é o nome que eu nunca chamei?
Se eu esbarrei na rua com você
E não te vi meu amor
Como poderia saber?
Tanta gente que eu conheci
Não me encontrei só me perdi
Amo o que eu não sei de você
Sei que você pode estar me ouvindo
Ou pode até estar dormindo
Do acaso eu não sei
Talvez veja o futuro em seus olhos
Pelo seu jeito de me olhar,
Como reconhecerei você?

Quero um chamego – Dominguinhos

Vivo procurando alguém
Pra não viver triste assim
Quero arranjar um chamego
Que goste também de mim

A tristeza nos meus olhos
Mostra o meu penar
Não encontro nesse mundo
Um chamego para amar

Onde está o meu amor? – Paulo Ricardo

Onde está o meu amor?
Quem será?
Com quem se parece?
Deve estar por aí
Ou será que nem me conhece?

Onde andará o meu amor?
Seja onde for
Irá chegar

Onde está o meu amor?
Que será que ele faz da vida?
Deve saber amar e outras coisas
Que Deus duvida

Corre, se esconde
Finge que não
Jura que sim
Morre de amores
Aonde?
Longe de mim!

Onde está o meu amor?
Leve e envolto
Em tanto mistério
Deve saber voar
Deve ser tudo que eu espero

Onde andará o meu amor?
Seja onde for
Eu sei que vai chegar
Vai chegar!

Corre, se esconde
Finge que não
Jura que sim
Morre de amores
Aonde?
Longe de mim
Onde está o meu amor?
Deve estar em algum lugar!

Pra você guardei o amor – Nando Reis

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

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15 pensamentos sobre “Ainda que a espera nunca chegue ao fim…

  1. Nossa, Dri. Cada vez que venho aqui me deparo com mais e mais talento. Já disse que tu me enche de orgulho, né?
    “ele é uma ausência mais presente do que tudo o que existe” -> nóh, lindo
    beijão

    • O mais engraçado é que, quando ele chega, vc descobre que ele não exatamente o dos sonhos. Então, vc muda um pouquinho o do sonho pra transformar o real num sonho verdadeiro – e palpável! =) Muito bom seu post, parabéns!

  2. Dri,

    Admiro muito quem escreve assim, se despindo por inteira e se entregando ao que sente.
    Arianinha demais vc.
    O texto é lindo, e a epera um dia cessa.

    Beijo grande, e orgulho, muito.

  3. Que coragem! Muita coisa ai poderia ter saído da minha boca.
    Sabe aquelas coisas que vc sente mas não sabe dizer? “E ficou pior depois que descobri minhas qualidades.” é um bom exemplo, mas vc conseguiu.

    bjss

  4. Poxa Dri… Você conseguiu colocar em palavras tudo o que se sente e se vive quando se encontra “ele”. E sendo uma pessoa assim tão especial como você, tenho certeza que “ele” vai aparecer sutil e especialmente como você merece!

  5. Pingback: Qualquer caminho serve « Adriana Caitano

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