Observação quase inocente

Admito. Sou mesmo uma incorrigível observadora do mundo. Fui muito tímida durante um tempão. Mas lá do meu cantinho desde pequena dava conta das histórias de todas as novelas (até as que eu não podia assistir), sabia o nome, a série, a turma e o esporte que praticavam todas as pessoas da minha escola, que era enorme – e eu ainda assusto muita gente quando digo “você não fazia vôlei, era da turma da fulana e namorou o beltrano?”. Sempre foi meu hábito também prestar atenção na conversa dos outros. Vira e mexe sou pega rindo ou dando palpite no papo de quem está almoçando ao meu lado no refeitório. Isso é sem querer, juro, um ato quase inocente.

Muitos poderiam dizer que eu sou fofoqueira. Mas eu não solto aos quatro ventos os segredos de ninguém. Isso é fofoca. Observação é outra coisa. Eu gosto de saber o que acontece ao meu redor, quem está onde, dizendo o quê para quem. Poderiam, portanto, me chamar de curiosa – o que até sou também. Mas não fico vasculhando a vida de ninguém, questionando, interrogando, xeretando. Isso é curiosidade. Observação é outra coisa. Eu fico muitas vezes quietinha, caladinha no meu canto. Não necessariamente por timidez ou por ser séria demais, como tanta gente acha. É que eu gosto mesmo de observar. Isso me dá prazer.  Se eu fosse invisível às vezes seria ainda mais prazeroso. Só para eu observar à vontade sem ser observada. E talvez por isso eu tenha me tornado jornalista.

O que me inspirou a escrever este post foi um comentário do tipo “sinto que você está o tempo todo me observando”. Mas, pra quem fica com medo de ser observado por mim, fique tranquilo: eu não uso minhas observações para o mau. No máximo elas vão virar um texto como este, uma crônica ou coisa assim. Porque para quem gosta de escrever qualquer assunto basta, mas, antes de tudo, é preciso observação.

Sendo redundante de propósito, a inspiração para a minha inspiração de hoje veio também da inspiração do músico e escritor Bruno Medina, que postou no blog dele um trecho de “Exercício da Crônica”, de Vinícius de Moraes:

“Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro [isso não preciso fazer (A. C.)], olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário matutino, ou da véspera, em que, com as suas artimanhas peculiares, possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida emocionalmente despertados pela concentração.”

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2 pensamentos sobre “Observação quase inocente

  1. Pingback: Qualquer caminho serve « Adriana Caitano

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