Pausa para mais um adeus

Lá vai você de novo e eu nem tive tempo… Não ouvi você cantar, não sei sua cor preferida, o que te deixa triste nem os lugares que faltou conhecer.

Não deu tempo de dizer como preciso de carinho, que minha marra é puro medo. E que minha busca por carinho é pra ver se aprendo a ter alguém por perto sem fugir. E que estava começando a gostar de quem eu era perto de você. Ainda não era um suspiro, mas me fazia bem.

Não pude te contar como tropeço nos sentimentos e o quanto eles me confundem. Faltou tempo pra outro cafuné, pra outra tentativa.

Você já parece estar de saída e eu nem pude cuidar de você quando ficou doente. Não te vi à luz do dia, não vimos um filme inteiro. Não consegui saber mais sobre seu mundo, suas canções.

Mais uma vez se foi antes que fosse. Antes que eu decidisse se queria, se podia ser, se era você. Não foi.
Hoje é você, ontem foi outro “você”. Mais um quase interrompido. Mais um fim antes do começo… Mais um adeus.

Se não rimar

Ícone by FreepikEstou numa fase poesia
Quando quero rimar meus sonhos com minha vida
Mesmo sem rimar

Ando querendo flutuar
Trocar de roupa, de rumo, de dia

Quero ouvir música e admirar
A lua, a chuva, o ipê
Quero o devaneio no lugar do espelho
E o suspiro no lugar do porquê

Quando sou prosa,
Quero desabafar, entender
Por que o mundo não é cor de rosa?
Quero mais pensar, mais dizer

Quando sou poesia,
Quero encurtar, perceber
Ser minha essência
Que só sabe sonhar pra viver

Mesmo sem rimar

Sobre ipês, sorrisos e cigarras

ipê brasília

Com as primeiras gotas que caem do céu, lá se vão os ipês. Dourados, brilhosos, róseos, violetas, alvos. Eles colorem as ruas secas e empoeiradas. Iluminam galhos retorcidos, surgem no meio do vazio. Florescem quando quase não há vida no Cerrado.

Tanto temos a aprender com eles, que provocam sorrisos e olhares admirados quando todas as outras árvores sucumbem à falta d’água e esmorecem, expulsando suas folhas em frangalhos.

Eles, os ipês, são o alterego da boa gente que ri alto quando tudo parece entristecer. Não lamentam a falta da chuva, pelo contrário – saltitam pelos canteiros, desfilam nas largas avenidas, deixando beleza pelo caminho que ela irá fazer. Só eles sabem a delícia que é ser cor no meio da fumaça que queima, da terra que domina, onde a regra era a morte. E eles vivem.

Ser ipê, só candango entende, é ser admirado por ser vistoso, um ponto de alegria entre tanto desgosto. É ser fotografado do alto, do lado, de frente, do ângulo reto e da grande angular. É ser compartilhado e curtido, virar pôster e capa de jornal, para depois derramar-se no chão em muitos pedaços, que é para pintar a grama que secou.

É completar o ciclo, doando seu corpo de madeira para terminar como um móvel fino. É passar pela vida cumprindo seu papel de colorir, embelezar, florescer. E sair dela leve, soltando flores pelo vento, abrindo espaço para a chuva que vem lá, rindo alto.

Ser ipê é ser luz onde há cegueira, amor onde há engarrafamento. É a natureza dizendo que sempre vai dar um jeito de surpreender e ecoar sua grandeza e sua delicadeza, ao mesmo tempo. Eu, se um ipê fosse, desfolharia feliz todo mês de setembro, só por ter iluminado por aí algumas vidas, esquinas, fotografias e poesias. Antes que as cigarras cantassem…

O amor é bipolar

amor bipolarE se eu achar que te amo só porque hoje acordei assim meio carente?
E se eu sentir falta do seu abraço, só porque lembrei que é o melhor que ganhei na vida?
E se eu quiser perder a hora conversando com você num bar de novo, mesmo que você tome só duas cervejas até ficar sem graça porque eu fiquei no suco de laranja?
E se eu olhar praquela lua linda que está lá fora e desejar estar na beira do Lago olhando pra ela junto com você?
E se eu quiser que aquele plano nunca cumprido de uma viagem juntos seja de verdade?
E se eu ouvir sozinha todas as músicas que eu sei que você gosta pra ver se você fica perto de mim, mesmo que de mentirinha?
E se eu jurar esquecer que vi defeitos em você que me pareciam impossíveis de superar?
E se eu prometer que vou tentar viver só o hoje, como você me ensinou, e não te cobrar nada mais que venha após o sol nascer?
E se eu garantir que vou ser mais leve e parar de pensar tanto?
E se eu não mudar tão rápido e quiser sua ajuda para aprender aos poucos?
E se eu continuar sendo assim, tão eu, por achar que, poxa vida, alguém vai ter que me aceitar?
E se você voltar e eu decidir que não quero mais?
E se eu perceber que não te amo coisa alguma, que era só carência mesmo?

 

Muitas páginas em branco – ou a difícil arte de concluir um texto

the endUltimamente tenho deixado muitos e muitos textos inacabados pelo caminho. Exatamente como faço com livros, ideias, projetos e cursos desde que me entendo por gente (esse assunto talvez fique para outro texto). Mas escrever, que é uma das coisas que mais gosto de fazer na vida, tem sido muito mais difícil nos últimos meses. Estou ainda tentando entender o motivo.

Toda vez que começo a dizer algo, vejo que estou indo pra um caminho de outro assunto que poderia virar outro texto e talvez ser colocado em outro lugar. Aí separo aquele trecho pra depois e começo de novo. Então travo. E os pedaços vão ficando soltos em páginas e páginas do meu computador. Este texto mesmo, eu comecei de um jeito e depois joguei tudo lá pra baixo ao ver que toquei em assuntos que cabem mais a outro momento. Por que isso está acontecendo?

Tentando fazer uma autoanálise aqui, pensei que pode ter a ver com meu momento de vida. Eu ando recalculando minha rota tantas vezes, buscando o melhor caminho, colocando um pé só em várias piscinas pra ver qual está menos fria. Aí eu começo um texto sobre mudanças e me vejo falando de medo. Então resolvo falar sobre o medo e paro pra pensar na beleza de ter várias experiências. Inicio palavras sobre isso, percebo minha mania de mudar de ideias a todo tempo e invento de começar tudo de novo. E fica tudo pelas metades…

(Estou aqui rindo de mim mesma sozinha. E pensando: será que vou levar este texto aqui até o fim? Será que vou ter coragem de publicá-lo?)

Sabe o que mais pode ser? Minha mania de perfeição (opa, outro assunto sobre o qual gostaria de escrever separadamente). Em primeiro lugar, por uma série de motivos, eu passei a ter mais gente pra ler o que escrevo e isso me fez calcular muito mais meus passos, preocupada com a repercussão do que digo na vida das pessoas e, claro, na minha. Aí penso – que idiota eu! As pessoas podem pensar o que elas quiserem, não terei controle sobre isso nunca! Mas, gente, essa minha autocobrança é danada pra me deixar em paz, viu?

Tem mais: eu inventei de alimentar esse sonho doido de querer ser escritora um dia. Por isso fico tentando ensaiar coisas mais bem feitas pra me convencer de que sirvo pra isso. E vocês não imaginam quantos títulos de livros já inventei no último ano… Fico confusa sem saber qual faço primeiro, se vou conseguir terminar, se alguém vai querer ler. Aí não comecei nenhum, ó que coisa!

Bom, não cheguei a conclusão alguma, mas acho que vou terminar esta baboseira aqui, pra dizer que um ao menos recebeu o ponto final. Se tem alguém lendo este texto confuso até aqui, desculpe aí. Eu estava só meio que “pensando alto”. É que escrever, pra mim, é uma forma de terapia gratuita e hoje resolvi deitar-me nesse divã um pouquinho, já que não podia correr para o verdadeiro agora…

PS: Ó eu terminando o texto com reticências. Isso é um sinal, né? Só pode. Aliás, mais uma coisa sobre a qual devo escrever: estou com mania de “psicologizar” tudo, tá engraçado)

Sonhar ou conquistar

imaginação800-450x450“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(…)

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonhos gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.”

(Fernando Pessoa – Tabacaria)

Contradições em hífens

sim-naoNão tem essa de

é-tem-que-ser, sorrir-toda-hora, igual-sempre-igual, sempre-pra-sempre

A vida é mesmo um intenso

sai-não-sai, vai-não-vai, fica-não-fica, morde-assopra, deixa-que-deixa

Às vezes, ela gosta de mostrar que

o-bem-me-quer-mal-me-quer, o-bom-pode-não-ser, o-ruim-é-pra-aprender, o-bem-pode-vencer

Mas o que ela quer de nós mesmo é pra valer

um-cai-levanta, um-sobe-desce, um-chora-sorri, um-agora-é-a-hora, um-sacode-a-poeira

Ela é assim, essa contradição toda. S-I-M-P-L-E-S-M-E-N-T-E.