Entre cobogós e tesourinhas

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Torre de TV de Brasília – Eixo Monumental (Foto: Adriana Caitano)

Lá do alto da Torre,
te vi pedalando no Parque da Cidade,
depois te encontrei no Beirute
e torci praquilo ser de verdade.

Skate no museu, por do sol na Ermida,
as quebradas de Ceilândia,
hip hop na avenida.
Num rolê em Planaltina e em Taguatinga depois.
Eu boto muita fé em nós dois.

Depois da Bomba no Guará,
te vi caminhando no Eixão,
surfando no Lago Paranoá,
indo ao Conic fazer carão.

Na SQS te vi entre cobogós, lá embaixo no pilotis.
E de baú indo pra Rodô vi a lua gigante naquele céu sem fim.
Será que você estava pensando em mim?

Na última tesourinha,
entrei na quadra errada, pra variar.
Me perdi nas Duzentos e parei numa quadra pra fotografar
Um ipê amarelo que acabou de aflorar.

Penso em você todo dia,
Alguém com quem tenho em comum
O amor por essa Brasília,
Que não se compara a lugar algum.

13 razões para você assistir à série ’13 Reasons Why’

A Netflix lançou no último dia 31 de março mais uma série que veio para dominar os assuntos na internet. Mas desta vez não é sobre zumbis, mistérios fantásticos, histórias futuristas ou paranormais. É sobre um assunto que está aí do seu lado, aqui do meu e a gente mal percebe: o suicídio.

Eu ainda nem tinha terminado de assistir a 13 Reasons Why (Os 13 Porquês), quando corri para escrever a respeito, porque, sim, falar sobre esse assunto é MUITO necessário e urgente. E eu sempre me preocupei com isso, até por quase ter entrado nas estatísticas.
Na série, inspirada num livro e com produção executiva da cantora e atriz Selena Gomez, Hannah é uma adolescente dos EUA vítima de problemas mais comuns do que gostaríamos: bullying e cyberbullying, sexualização das mulheres, machismo, assédio, falta de diálogo com a família, depressão. Talvez nada disso te pareça sério o bastante para a personagem fazer o que fez, mas a própria explica com detalhes como juntar esses elementos a levou à decisão fatal.
Em 7 fitas cassete, ela conta sua história aos envolvidos e cada lado de cada fita é um episódio sobre um deles. No fim de semana passado, a série chegou ao Trending Topics do Twitter com a hashtag #NãoSejaUmPorque, com pessoas refletindo sobre como a história mexeu com o estômago de todo mundo. O assunto bullying veio à tona e junto trouxe um monte de desabafos. Mas também chacoalhadas.

A Hannah não tem um “perfil clichê” para o caso. Não é gordinha, negra, deficiente ou homossexual – pessoas acostumadas (mas não conformadas) a sofrerem preconceito e bullying diariamente. É bom para mostrar que qualquer pessoa pode passar por isso (claro que guardadas as devidas proporções). Se tudo isso já não foi suficiente, veja abaixo mais 13 motivos para você parar tudo e assistir à série 13 Reasons Why agora mesmo:

1. Você vai querer saber mais sobre isso quando vir a série.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já alertou que o suicídio é um problema de saúde pública que deve ser visto como prioritário por gestores de todas as nações. Segundo estudo do órgão, a cada 40 segundos uma pessoa se mata no mundo – são 2.160 pessoas por dia. Acredite, ele mata mais que a aids e a violência! O Brasil, infelizmente, já foi considerado o oitavo país com o maior número de suicídios do planeta. E é pior entre os jovens: na última década, a taxa de brasileiros que tiram a própria vida cresceu mais de 40% entre pessoas de 15 e 29 anos. É ou não é importante prestar atenção nesse assunto?

2. Você provavelmente vai ficar se perguntando se não tem alguma Hannah ao seu lado.

Hannah era uma adolescente comum, bonita, saudável, tentando passar logo pela fase mais chata e perturbadora da vida. Mas ela sofria e ninguém levou a sério seus sinais de que algo não ia bem.

3. Pode trazer algum insight sobre as consequências do bullying na sua vida de hoje.

A história se passa numa escola de ensino médio americana (o famoso High School), com personagens bem óbvias, como a líder de torcida, o capitão do time de basquete, o garoto nerd esquisito. Tirando esses detalhes, não é tão diferente da nossa realidade aqui no Brasil. Então, inevitavelmente vai passar um filme da sua adolescência na cabeça, como quando você fez comentários maldosos sobre alguém ou foi vítima deles.

4. Se você é ou foi um (a) adolescente com problemas parecidos com os da Hannah…

Vai pensar na importância de colocar isso para fora, falar a respeito, procurar ajuda. Muito do que ela passou poderia ser resolvido pela direção da escola, quem sabe, caso ela tivesse sido atendida antes. Psicólogos, terapeutas, psiquiatras e o CVV também estão aí para isso.

5. A série é também uma crítica ao formato da educação tradicional americana…

Perfeitamente adaptável à nossa. É bom vocês que pensam o futuro do País prestarem bastante atenção na fala da Hannah, com a qual eu concordo plenamente: “Sonhe grande, eles dizem, mire alto. Depois eles nos trancam por 12 anos e dizem onde sentar, quando fazer xixi e o que pensar. Então fazemos 18 anos e, mesmo que nunca tenhamos pensado sozinhos, temos que tomar a decisão mais importante das nossas vidas”.

6.Se você trabalha com educação, aliás, vai ver o quanto não sabe de verdade sobre o que se passa na cabeça dos seus alunos.

Violência, agressividade e, principalmente, o bullying são sinais sérios demais para serem ignorados. Você nunca sabe como cada episódio pode ser encarado por alguém mais frágil e sensível; por isso, não subestime os relatos e as expressões de seus alunos.

7. Caso tenha um caso de suicídio (ou tentativa) próximo a você, vai talvez entender como os motivos daquela pessoa, por mais estranhos que possam ser, eram reais e pesados demais para ela.

Mas também vai ver que a culpa geralmente é compartilhada e muitos fatores podem ser somados na hora do sofrimento. Perdoá-la e perdoar-se será um passo muito importante.

8. Pais e mães vão pensar em como é para ontem o início de um diálogo franco e constante com seus filhos.

Vocês devem ser os que mais vão sentir um nó na garganta ao ver os episódios em que a mãe da Hannah fica tentando descobrir o porquê. A aflição dela ao procurar pistas e provar que a escola também foi responsável pelo que houve é tocante e triste, porque é como se ela só passasse a conhecer de fato a filha depois que ela morre.

9. Você provavelmente não vai se calar quando vir alguém sendo vítima de outra pessoa.

Embora eu não ache que necessariamente haja um culpado direto, a personagem acusa não só os que a maltrataram, mas também quem não tentou evitar. A melhor frase da sequência certamente é uma que está no início: “Talvez [você] tenha feito algo cruel. Ou talvez só tenha observado acontecer”. É bom assistir para analisar quantas vezes você não deu uma de Pilatos e simplesmente lavou as mãos diante da maldade alheia. Isso vai te servir para muitos momentos, como quando vir uma mulher apanhando do marido, por exemplo.

10. Você pode sentir peso na consciência.

Talvez sua reflexão seja ainda mais profunda ao perceber que você pode ser um dos motivos de uma pessoa como a Hannah, um dos “porquês”. Corre que ainda dá tempo de ir lá pedir desculpa.

11. Você pode ser uma Hannah.

Então acalme-se e pense na história dela como algo que poderia ter sido evitado. É para aprender, refletir e entender, não para te incentivar. Dá para perceber o quanto a decisão dela afetou a vida de um monte de gente? É o efeito borboleta, como ela mesmo cita. Fugir não vai fazer todo mundo te amar e perceber como você era importante para o mundo. Vai trazer lágrimas e dor, tão ou mais fortes que a que você sente agora. Tenha a certeza de que alguém te ama hoje e merece uma chance de tentar cuidar de você.
O mais importante: por mais responsabilidades que você ganha depois, é maravilhoso quando a adolescência passa. Essas cobranças para que a gente se pareça com alguém, se sinta incluído ou faça parte do grupo de populares da escola ficam pequenas diante dos outros desafios que surgem pela frente. Na verdade, você talvez nunca pare de querer se enquadrar, agradar todo mundo, mas acredito que nada será tão cruel como ser adolescente.

12. Não tem como você assistir à série e não chegar à conclusão de que essa história de “ela se matou para chamar a atenção” é besteira.

Também não é frescura, não é ser mimado, não é coisa de rico nem da geração Y. As pessoas têm depressão, síndrome de pânico e tendências suicidas não porque gostam, mas porque são problemas reais que devem ser tratados com seriedade e tratamento. Dói de verdade. Não é porque você sabe lidar tranquilamente com situações negativas que todo mundo vai saber.

13. Você pode ajudar a trazer o tema à tona.

No Brasil e em muitos outros lugares, existe um acordo não escrito que faz a imprensa nunca noticiar suicídios, para não incentivar. Isso é importante porque de fato o que a mídia diz tem alto poder de influência, principalmente para quem só estava esperando mais um motivo para se matar – ver que outra pessoa tomou coragem pode ser um deles. Mas por conta desse silêncio nós nunca falamos a respeito, não discutimos isso com a seriedade e atenção que merece. Faltam dados, registros, alertas. É como se não existisse. Aí ninguém vai se preocupar de fato com isso, apesar de ser considerado pela OMS uma “epidemia de extensão global”. Quem sabe você pode ser uma das pessoas que vai trazer o debate à tona e salvar vidas? Eu estou tentando…

*Publicado originalmente em meu blog no HuffPost Brasil, em 6 de abril de 2017.

Aceite-me como sou

Apenas eu

namorados_idososAceite-me como sou
Doida ou sã
Puta ou santa
Alegre ou sofrida
Otimista ou descrente
Aberta ou reprimida

Deseje meu corpo
Firme ou flácido
Reto ou curvilíneo
Celulítico, paralítico, raquítico
Sóbrio, pálido ou bronzeado
Dobradiço, roliço, desenfreado

Ame meus defeitos, meus peitos, meu humor
Meu desespero e meu despudor
Veja luz em meu olhar e acolha minha dor
Abrace minha essência e terá o meu amor

Fiz um vídeo recitando essa poesia, a propósito:

Coração sem barreiras

Invejo as pessoas que amam sem medo, que se jogam, que, mesmo depois de uma rasteira, levantam de queixo erguido e não desistem de amar. Como é bonito ver o amor crescendo em um coração sem barreiras…
O amor é uma coisa tão linda, era pra ser leve e intenso sempre. Mas nem todo mundo está disposto de verdade a tentar, a juntar a bagagem com a do outro, a pagar o preço.

Amar traz um monte de efeitos colaterais. Às vezes dor, às vezes taquicardia, às vezes moleza no corpo, às vezes insônia. E amar dá medo, muito medo.

A gente pensa em todas as possibilidades de dar errado, de ser abandonado, traído, ignorado. E mal lembra que há também a possibilidade de dar tudo certo, de ser intenso e tranquilo ao mesmo tempo, de não doer tanto assim, de ser pra sempre ou de não ser e mesmo assim ser bom enquanto durar.

É por isso que invejo quem se abre pra isso tudo. É inspirador. Faz a gente acreditar que é possível, que a questão não é não ter medo, é amar com medo mesmo, só pra sentir o gosto do amor, pelo menos uma vez. 

Quem me faz feliz

felizDurante muito tempo busquei um amor, um relacionamento para preencher um vazio que sentia no peito. Achava que ser amada por alguém que não fosse da minha família era a chave para eu ter certeza de que tinha valor. Condicionei por anos minha felicidade ao surgimento de um homem que chegaria resolvendo todos os meus problemas: da autoestima à companhia pra ir ao cinema. Até lá, aguardaria infeliz e sozinha o resgate. Depositei responsabilidade demais nas costas de um desconhecido que não sabia nem se e quando chegaria.

Mas a maturidade me ensinou que seria justamente o contrário. Continue lendo

Medo de ser feliz

menina medoTodas as vezes que coisas boas me acontecem ou estão para acontecer ou quando deduzo que podem vir as ruins, adoeço, estremeço, dou um jeito de fugir de algum jeito. Pode não ser de verdade, com as próprias pernas, mas meu corpo acusa o medo. Surgem dores de garganta, de barriga, de cabeça, de dente. Fico fraca, com alergia, com estômago embrulhado. Como uma menina quando teme o escuro e chora embaixo do cobertor, meu organismo faz uma revolução para evitar que eu avance…

Eu não percebia essa história antes, mas comecei a aprender aos poucos. Terapeutas e psicólogos chamam isso de auto boicote ou autossabotagem. Parece insano e fora da realidade acreditar que alguém em sã consciência boicotaria a si mesmo, mas é fato. A gente tem uma capacidade danada de passar a perna em quem mais deveria ser cuidado. E eu sou dessas – faço de tudo para aquela pessoa que vejo no espelho se dar mal. Maluquice isso, né?

Percebi que, no fundo, acho que não mereço nada daquilo ou acredito que vai acabar logo e aí sim vai doer. Então me protejo da possível dor antes de ela pensar em existir. Para muitas etapas da minha vida profissional, minha vontade foi bem mais forte que meu medo. E tantas outras poderiam ser diferentes se ele não existisse. Mas em outros atos ele ainda comanda. Como um diretor de teatro que decide a hora do último sinal.

No amor, tanto pior. Arrumo mil defeitos em quem se aproxima, mostro a ele os meus, todos de uma vez. Absorvo todos os sinais aparentemente negativos como um adeus e despejo nele todas as minhas neuroses. Tudo para garantir que nada dê certo. Assim sofro menos, diria meu subconsciente. E eu, na minha inocente consciência, dizendo que tudo o que queria era um amor de verdade.

Observar que eu fazia tudo isso não foi fácil. Neguei por muito tempo. A timidez, o nervosismo, a desconfiança e a insegurança sempre foram soldados fiéis desse boicote cruel a que me submeti. E eu jurando que era só uma questão de azar ou sorte. Enquanto lá dentro meu Tico e Teco estavam debatendo: E se der certo? E se não der? E se me magoarem? E se eu magoar alguém? E se eu aparecer demais? E se eu ficar metida? E se me acharem idiota? E se eu conseguir e as outras pessoas não? E se todo mundo conseguir e eu não? E se eu quebrar a cara? E se eu fracassar?

E se, e se, e se… O medo do que pode e não pode acontecer tem me feito viver, por tantos anos, sem viver de verdade. Porque penso no que os outros vão pensar ou porque não tenho coragem suficiente de enfrentar meus próprios defeitos. Por covardia ou por orgulho. E, depois de tanto mergulhar em minha mente para entender, veio a resposta: tenho tamanho de gente grande, mas descobri que sou mesmo é uma garotinha com medo de ser feliz. E esse medo ninguém deveria ter.

Pausa para mais um adeus

Lá vai você de novo e eu nem tive tempo… Não ouvi você cantar, não sei sua cor preferida, o que te deixa triste nem os lugares que faltou conhecer.

Não deu tempo de dizer como preciso de carinho, que minha marra é puro medo. E que minha busca por carinho é pra ver se aprendo a ter alguém por perto sem fugir. E que estava começando a gostar de quem eu era perto de você. Ainda não era um suspiro, mas me fazia bem.

Não pude te contar como tropeço nos sentimentos e o quanto eles me confundem. Faltou tempo pra outro cafuné, pra outra tentativa.

Você já parece estar de saída e eu nem pude cuidar de você quando ficou doente. Não te vi à luz do dia, não vimos um filme inteiro. Não consegui saber mais sobre seu mundo, suas canções.

Mais uma vez se foi antes que fosse. Antes que eu decidisse se queria, se podia ser, se era você. Não foi.
Hoje é você, ontem foi outro “você”. Mais um quase interrompido. Mais um fim antes do começo… Mais um adeus.