Esconde-esconde literário

Passo o dia tentando pescar as frases bonitas de serem escritas que ficam flutuando na minha cabeça. Como são inspiradas! Só que elas vêm em hora imprópria. Quando estou quase dormindo, ou caminhando pela rua, ou no banheiro – hora imprópria ao quadrado. Por que elas não chegam com horário marcado, quando estou perto de um computador, com tempo e paciência para despejá-las numa folha em branco, pronta para dividir todas elas com o mundo?

Mas as frases, essas fujonas, parecem gostar de serem impróprias. Para elas, a certeza de que serão escritas, organizadas e talvez lidas não é nada excitante. Divertido, elas pensam, é surgir e sumir num piscar de olhos, na velocidade do pensamento, como num esconde-esconde. Até que qualquer música tocando ao longe ou cena da novela me tire a concentração para eu não conseguir encontrá-las mais. Elas gostam de me ver esticando os pensamentos para tentar alcançá-las. E dificilmente consigo.

Se elas não gostassem tanto de me provocar, quem sabe, eu já teria escrito um livro. E dos bons, por que não? Mas essas ideias irresistivelmente interessantes são nômades, vêm, vão e vão e vão e vão. Até eu desistir de procurá-las. E abrir outra página em branco para falar sobre qualquer outra coisa, bem menos interessante que elas poderiam ser. São orgulhosas as danadas. Preferem ser exclusivas, misteriosas, hábeis ao torturar quem lhes persegue. E ai de quem as encontrar. Cometerá histórias e poesias inesquecíveis. Há quem consiga. Eu ainda não aprendi…

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Inspiração – Ney Matogrosso e Pedro Luís e a Parede

Arranca o couro cabeludo
Arranca caspa, arranca tudo
Deixa entrar sol nesse porão
Em qualquer dia por acaso
Desfaz-se o nó, rompe-se o vaso
E surge a luz da inspiração
Deixa seus anjos e demônios
Tudo está mesmo é nos neurônios
Num jeito interno de pressão
Talvez se possa, como ajuda
Ter uma amante manteúda
Ou um animal de estimação
Pega a palavra, pega e come
Não interessa se algum nome
Possa te dar indigestão
O que se conta e se aproveita
É se a linguagem já vem feita
Com sua chave e seu chavão
A porta se abre é de repente
Como se no ermo do presente
Se ouvisse a voz da multidão
E o que tem força, o que acontece
É como um dia que estivesse
Sem calendário ou previsão
Fica à espera, de tocaia
Talvez um dia a casa caia
E fique tudo ao rés-do-chão
Fica a fumaça no cachimbo
Fica a semente no limão
Fica o poema no seu limbo
E na palavra um palavrão

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